fbpx

Conheça o livro "As Mais Belas Trilhas da Patagônia"

Torres del Paine, El Chaltén, Bariloche, Ushuaia, Villarrica, Cerro Castillo, Dientes de Navarino e Parque Patagonia

Remando em volta da Ilhabela – Roteiro e dicas

Atenção: Esse artigo tem apenas a intenção de facilitar a logística da sua remada em volta da Ilhabela, de forma alguma você deve imaginar que só por decorar o que está escrito aqui, estará preparado para remar de forma autossuficiente. Se você e as outras pessoas do seu grupo nunca fizeram uma viagem de caiaque, vá com remadores mais experientes, sejam amigos ou guias de canoagem (melhor ainda). De nada vai adiantar você ter todo o conhecimento teórico se, na prática, reagirá de modo errado se for pego por uma mudança do mar quando estiver no lado “de fora” da ilha. A grande diferença de uma viagem de caiaque para uma viagem de bicicleta ou uma travessia de trekking é que, em terra, se o tempo muda de um momento para o outro, podemos nos sentar e esperar que o tempo melhore. No mar isso não funciona então não seja inconsequente, já há riscos de sobra mesmo para quem sabe o que faz.

Visão geral
A circunavegação da Ilhabela é uma das remadas clássicas do Brasil e também é, certamente, uma das mais bonitas. Localizada a apenas 200 km de São Paulo e a 430 km do Rio de Janeiro, o acesso é fácil para os moradores das duas maiores cidades do país e é justamente por isso que me surpreendo como tem tão pouca gente fazendo essa remada, seja de caiaque oceânico, surfski ou canoa havaiana.
Como curiosidade, vale explicar que Ilhabela é o nome do município, a ilha que estamos acostumados a chamar de Ilhabela na verdade se chama Ilha de São Sebastião.

A distância total da remada é de aproximadamente 115 km e, para conseguir conhecer bem os pontos mais bonitos, o ideal é fazer a volta em 4 dias. Mas se você está bem treinado e quer ficar pouco tempo nas praias, é perfeitamente viável fazer em 3 dias.

Abaixo estão, na minha opinião, os melhores pontos de pernoite, principais atrativos e a distância entre eles, assim você pode se planejar de acordo com quantos dias têm e o ponto de partida/chegada.

Ponto de partida
– Praia Preta do Centro (São Sebastião): Como eu moro em São Sebastião, sempre saio da Praia Preta. Esse é o trecho em que o Canal é mais estreito, com apenas 2 km, então a distância da remada quase não se altera. Mesmo para os turistas, considero a melhor opção pois assim você evita a fila da balsa. Além disso, é permitido entrar com o carro na areia, que é dura, podendo parar ao lado da água para descarregar. Como há duas praias com o mesmo nome em São Sebastião, tenha certeza que o GPS está te levando para a Praia Preta do Centro, não para a Praia Preta da Costa Sul.
– Rampa do Perequê: Na região central da Ilhabela, o melhor local para colocar o caiaque na água é a rampa pública que fica na extremidade sul da Praia do Perequê pois assim, saindo da região central, você dividirá melhor as distâncias entre o primeiro e o último dia.
– Praia do Veloso: Se quiser sair do sul da ilha, a Praia do Veloso é a última e o carro fica bem perto da água.
– Praia do Sino: Se quiser sair do norte da ilha, a Praia do Sino é a praia mais ao norte em que o carro fica próximo da água.

Sentido horário ou anti-horário?
O trecho mais perigoso da remada fica entre a Ponta do Boi e a Ponta da Piraçununga, então eu prefiro fazer a volta no sentido anti-horário, passando pelo trecho mais exposto no início do segundo dia. Porém, se a previsão do tempo e mar for melhor para fazer a remada no sentido horário, seja esperto e aproveite a condição de mar/vento a seu favor.

Se você não sabe checar os sites de previsão do tempo e ondas para analisar qual o melhor sentido de fazer o circuito, então não me leve a mal mas você ainda não está preparado para ir para o mar de forma autossuficiente, volte ao primeiro parágrafo e o leia com atenção.

Quantos dias?
Para quem não conhece nada de Ilhabela, indico que faça em 4 dias, assim terá tempo para descer em várias praias, mergulhar e até mesmo para fazer trilhas que levam a mirantes e cachoeiras. Fazendo em 4 dias, os melhores pontos de pernoite são:
1ª noite = Praia do Bonete (camping estruturado ou pousada);
2ª noite = Praia da Figueira (camping selvagem) ou Praia de Castelhanos (camping estruturado ou Airbnb);
3ª noite = Praia da Caveira (camping selvagem) ou Praia do Poço (camping selvagem).

Se preferir fazer em 3 dias, os pontos de pernoite são:
1ª noite = Praia do Bonete (camping estruturado ou pousada);
2ª noite = Praia da Caveira (camping selvagem).

Outra opção, dessa vez com relação ao conforto para dormir e comer, é de fazer com pernoites apenas no Bonete e Castelhanos. Nessas praias há campings estruturados, pousadas e restaurantes, facilitando a vida de quem não gosta de camping selvagem. A dificuldade é a distância de Castelhanos até o Canal de São Sebastião, onde poderá desembarcar, mas se quiser terminar a remada na Praia do Sino, são apenas 35 km.

Roteiro
Como expliquei no tópico ‘Ponto de partida’, há diversas praias que podem ser usadas para começar sua remada. Como meu local predileto é a Praia Preta do Centro (São Sebastião), vou usá-la para descrever o roteiro mas você pode facilmente adaptá-lo ao local que escolher, é só reajustar as distâncias.

Descreverei a remada no sentido anti-horário pelos motivos que também já expliquei. A distância entre parênteses é sempre referente ao início da remada na Praia Preta do Centro.

Ilha das Cabras (2 km)

Saia da Praia Preta na direção da Ilha das Cabras e a contorne pelo norte. A ilha é particular e não tem praia mas isso não é problema, já que o mais interessante está na água. Isso porque, em volta da ilha, foi criado em 1992 o Santuário Ecológico Submarino, que protege a fauna local e faz com que, se a água estiver cristalina, seja possível ver muitos peixes até mesmo de dentro do caiaque.

Praia da Feiticeira (4,5 km)

A próxima praia que merece destaque é Feiticeira, que no seu lado direito (olhando do mar para a praia)  tem um casarão em estilo colonial que, até os anos 1970, era a sede de uma fazenda de cana-de-açúcar e produção de cachaça. Atualmente abrigando festas, ela também é conhecida como a Mansão do Bicheiro, já que até 1998 pertencia ao maior bicheiro do Brasil, Ivo Noal.

Praia do Curral (8,5 km)

Com muitos hotéis, restaurantes e bares com música alta, o Curral é uma das praias mais badaladas da Ilhabela e, por isso mesmo, não é uma das minhas favoritas. Mesmo assim, não posso deixar de citá-la nesse artigo por causa de sua fama.

Praia do Veloso (9 km) – Ponto alternativo de início/fim

Vizinha à Praia do Curral, o Veloso é a última praia dentro do Canal de São Sebastião. Bem mais tranquila que sua vizinha, é sua última chance de desembarcar em uma praia antes de seguir até o Bonete, 21 km depois. Também é um dos bons pontos de início da remada, caso você decida sair da Ilhabela, não de São Sebastião.

Ponta da Sela (12,5 km)

A Ponta da Sela e seu farol marcam o fim do Canal de São Sebastião e o início da remada em mar aberto, com menos influência da corrente de maré, que costuma ser forte dentro do Canal.

Buraco do Cação (22 km)

Para ter noção do tamanho desse paredão, fiz um círculo vermelho em volta de onde eu estava pilotando o drone.

O Buraco do Cação e a Gruta do Oratório são duas lindas formações que, em dia de mar totalmente liso, permitem uma visita. Quando eu digo mar totalmente liso, não é exagero pois as ondas que, do lado de fora, são pequenas, no lado de dentro se afunilam, crescem e jogam o caiaque contra as rochas. Sei de ao menos uma morte nesse local, então minha dica é para que olhe apenas de fora.

Praia do Bonete (29,5 km) – Ponto de pernoite

Dentre as praias com acesso apenas por mar ou trilha a pé, o Bonete é a mais famosa e não é à toa. A antiga vila de pescadores agora possui algumas pousadas, campings e restaurantes mas, mesmo assim, ainda não perdeu seu charme e abriga a maior comunidade caiçara da Ilhabela.
Com mais de 600 metros, é famosa também entre surfistas, especialmente o lado esquerdo (de quem está no mar, olhando para a praia), conhecido como Canto do Surf. É nesse lado que fica o camping pé na areia “Outro Canto” mas, se o mar estiver bravo e você não estiver seguro para desembarcar, vá para o outro lado, conhecido como Canto do Rio, pois ali as ondas costumam ser menores.
Depois de se instalar, se ainda der tempo e estiver com energia, suba para um dos mirantes para ter uma vista linda da praia. Há um mirante de cada lado e, como a distância para eles é parecida, só depende qual vista você prefere ter, veja as fotos acima e escolha.
Se alguém te recomendar a trilha para a cachoeira, vá mas saiba que não há cachoeira, o que existe é um poço e uma pequena corredeira. Ótimo lugar pra se refrescar, apenas acho bom avisar para que não se decepcione.
Para comer um bom prato feito, vá ao Restaurante da Izabel, um restaurante bem pequeno e rústico, com poucas opções mas com boa comida e preço justo. O restaurante fica no caminho para a “cachoeira”, basta perguntar para qualquer morador.

Praia de Indaiauba (35,5 km)

Na Enseada das Enxovas há 3 praias: Bonete, Enxovas e Indaiauba. A essa altura você já conheceu o Bonete e, se quiser parar em mais uma praia dessa enseada, pare em Indaiauba, que eu acho mais bonita que Enxovas. No lado esquerdo (olhando do mar pra praia) há uma cachoeira bem pequena mas boa para uma refrescada e tirar o sal do corpo.
Depois de Indaiauba, a próxima praia é a do Codó, a 23 km daqui. Se você decidir seguir direto do Bonete para a Ponta do Boi, remará 3,5 km a menos do que se costear para Enxovas e Indaiauba.

Ponta do Boi (45 km)

A Ponta do Boi é um dos pontos com mar mais perigoso ao redor da Ilhabela e, se o mar estiver grosso, é melhor se afastar bastante da costa para evitar as ondas que rebatem no paredão e dificultam bastante a navegação.
O farol da Ponta do Boi foi inaugurado em 1900 e é, na minha opinião, o mais bonito da Ilhabela.

Ponta da Pirabura (49 km)

Ilhabela é o maior cemitério de navios em todo o Brasil, são inúmeros os naufrágios que ocorreram aqui e o mais famoso e mortal de todos foi do Príncipe de Astúrias. Ele era o transatlântico mais luxuoso da Espanha e fazia a rota Barcelona-Buenos Aires, mas em 1916 se chocou contra a Ponta da Pirabura e causou 445 mortes. Dizem que haviam muitas pessoas sem registro nos porões do navio e que morreram sem entrar na contagem, mas isso nunca foi comprovado.
Deixando a tragédia de lado, a Ponta da Pirabura fornece proteção contra vento e ondulação de sul, sendo um bom local para quem quer sair um pouco do caiaque. Como não há praia, só faça isso se estiver seguro que consegue fazer a reentrada em água profunda. Sempre que passei aqui havia uma enorme boia em que é possível amarrar o caiaque para ele não ficar à deriva, mas não considere isso como certo.

Ponta da Piraçununga (53,5 km)

Essa ponta marca o fim do trecho mais isolado da circunavegação da Ilhabela e, a partir daqui, será mais frequente o encontro com outros barcos.

Praia do Codó (58,5 km)

Há diversas praias minúsculas na Ilhabela e muitas delas nem têm nome, mas a mais bonita de todas tem e se chama Codó. Em frente às Ilhas Galhetas, dentro de um minúsculo saco e com duas casas em sua encosta, é preciso cuidado para não bater o casco nas pedras, especialmente na maré baixa.

Praia da Figueira (60 km) – Ponto de pernoite

Na Figueira não há campings ou pousadas, então é necessário fazer camping selvagem. Porém, antes de montar sua barraca, converse com os moradores e peça permissão. Sendo simpático, educado e respeitando os moradores, eles não negarão seu pedido. É verdade que a faixa de areia é pública mas eles que moram ali, preservam o local e, se formos levar a lei a sério, lembre-se que é proibido acampar nas praias brasileiras. Portanto, sempre respeite os moradores, não faça barulho e, mais importante ainda, não deixe lixo. É claro que essas regras deveriam ser seguidas em qualquer lugar mas, como muita gente não faz isso, vale enfatizar.
Uma alternativa para dormir com mais estrutura é seguir para Castelhanos, leia abaixo a descrição.

Praia de Castelhanos (66 km) – Ponto de pernoite

A distância da Figueira para Castelhanos é pequena, então vale chegar perto da Praia Vermelha e da Praia Mansa para dar uma olhada nelas ao menos a partir do caiaque. Apesar de serem muito bonitas, não têm nenhum atrativo a mais do que há nas outras praias.
Castelhanos é uma das praias mais bonitas da Ilhabela e pode ser acessada por uma estrada de terra que muitas vezes está em péssimo estado, então não é permitido usá-la com carro de passeio. Na alta temporada e nos fins de semana, dezenas de jipes levam turistas para Castelhanos, movimentando seus restaurantes. De qualquer forma, a praia é longa e não fica cheia mas, ainda assim, é um choque em comparação com as praias visitadas até o momento.
Para ter uma bela vista, vá até o Mirante do Coração, no lado esquerdo (olhando do mar para a praia).
O Camping do Leo é o único que já usei e fica de frente para a praia, no lado esquerdo (de quem olha a partir do mar), mas há também outras opções de hospedagem, inclusive no Airbnb.
A vantagem de dormir em Castelhanos e não na Figueira é que assim você já estará instalado para fazer a trilha para a Cachoeira do Gato, descrita abaixo.

Cachoeira do Gato (5 km de caminhada)

Importante: no momento a cachoeira está fechada para visitação por causa da reforma nos encanamentos de captação de água para a comunidade do Gato.
O terceiro dia tem menos remada para sobrar tempo para uma visita à Cachoeira do Gato, uma das mais bonitas da ilha. A trilha até ela tem 5 km (ida e volta, contando a partir do meio da praia) e 150 metros de ascensão. Recomendo que vá logo cedo, antes que os jipeiros cheguem com os turistas, assim você terá a cachoeira vazia ou com poucas pessoas.

Saco do Eustáquio (75 km)

Ponto famoso entre donos de lanchas e veleiros, na alta temporada você encontrará dezenas de barcos atraídos pelas águas calmas e cristalinas do Saco e, também, pelo seu restaurante, que dizem ser bom mas eu nunca experimentei. Se você achar que há pessoas e barcos demais, no lado esquerdo do Saco há uma praia bem pequena onde você terá mais tranquilidade.

Praia da Caveira (77 km) – Ponto de pernoite

A Caveira é a melhor praia para quem gosta de camping selvagem, já que não há nenhuma casa, há bom espaço para barracas e redes e um riacho que, mesmo não sendo fundo, permite um banho para retirar o sal do corpo. Para pegar água doce, atravesse o riacho e ande uns 10 metros até uma pequena corredeira.
Voltada para leste e de frente para a Ilha de Búzios, o nascer do sol e da lua são imperdíveis na Caveira, assim como em Castelhanos.

Praia da Riscada (81 km)

A Riscada tem menos de 50 metros e vale uma rápida parada. Não é muito fácil de vê-la pois fica escondida pelas pedras e, se resolver parar, cuidado no desembarque para não bater o caiaque. Entre a Praia da Caveira e a Riscada fica a Praia da Serraria, que abriga uma comunidade caiçara, é bonita mas não tem algo que a destaque das demais praias.

Praia do Poço (87,5 km) – Ponto de pernoite

Com menos de 100 metros, é uma das praias mais bonitas da ilha pois há uma corredeira e um belo poço que é ótimo para um banho e para fugir dos borrachudos, que aqui são ainda mais vorazes que em outras praias da Ilhabela. O problema é que de vez em quando as ondas mudam a praia, retirando a areia que represa o rio ou, pior, retirando toda a areia e dificultando a vida de quem quer acampar.

Praia do Jabaquara (93,5 km)

Dentre as praias com acesso por carro de passeio, o Jabaquara é a que considero mais bonita. No fim de uma estrada de terra, tem restaurantes e fica bem movimentada na alta temporada. Não a coloquei como um ponto alternativo para início e fim pois o estacionamento não fica tão perto da água como na Praia do Sino, mas também pode ser usada, apenas entre em contato previamente com o restaurante Espaço Tangará para perguntar se pode deixar o carro por vários dias.

Ponta das Canas (99 km)

O farol da Ponta das Canas e um belo casarão em estilo colonial marcam a reentrada no Canal de São Sebastião, com sua costumeira forte correnteza, então não pense “já acabou” porque se a correnteza e vento estiverem contra, é bem provável que seja o trecho mais cansativo de toda a remada. Daqui em diante você terá muitas praias para desembarcar, esticar o corpo e comer ou beber algo.

Praia do Sino (102 km) – Ponto alternativo de início/fim

Praia com boa estrutura turística mas não tão bonita como as anteriores. A citação nesse artigo se dá por ser um bom local de início ou fim da remada, já que o carro fica bem perto da água, por ter opções de hospedagem (camping inclusive) e para deixar o carro em segurança.

Vila (105 km)

Se você não conhece a Vila, como é chamado o centro turístico da Ilhabela, vale parar para caminhar um pouco por suas charmosas ruas, lojas e restaurantes. Um pouco antes do píer você verá algumas rampas de concreto, suba o caiaque ali caso a maré esteja muito alta.

Rampa pública do Perequê (109 km) – Ponto alternativo de início/fim

A Praia do Perequê não é bonita mas, em seu lado esquerdo (de quem está em terra, olhando pro mar) há uma rampa pública, como explicado no tópico “Ponto de partida”.

Praia Preta do Centro (115 km)

Para chegar na Praia Preta você pode seguir costeando a Ilhabela até a Ilha das Cabras ou, então, cruzar o Canal e passar com seu caiaque por baixo do maior porto petrolífero do Brasil e ver o centro de São Sebastião a partir do mar. Se a corrente estiver a seu favor, pode ser uma boa cruzar o Canal em seu trecho mais largo para aproveitar o empurrãozinho. Caso esteja contra, vá bem rente à Ilhabela para não ficar remando contra a corrente.

Conheça o livro "As Mais Belas Trilhas da Patagônia"

Torres del Paine, El Chaltén, Bariloche, Ushuaia, Villarrica, Cerro Castillo, Dientes de Navarino e Parque Patagonia