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Conheça o livro "As Mais Belas Trilhas da Patagônia"

Torres del Paine, El Chaltén, Bariloche, Ushuaia, Villarrica, Cerro Castillo, Dientes de Navarino e Parque Patagonia

Cicloviagem pela Estrada Real

Relato de uma viagem de 1.230 km, feita de bicicleta e em solitário, entre Diamantina (MG) e São Sebastião (SP)

Mapa com as cidades em que pernoitei. A linha em vermelho é o Caminho dos Diamantes, a linha em rosa é o Caminho Velho e a linha em verde, o trecho da Rio-Santos que percorri para chegar em casa.

Durante o Brasil colônia, as estradas reais eram os caminhos oficiais por onde as pessoas e, mais importante, as mercadorias podiam circular. Naquela época era proibido abrir caminhos que não fossem controlados pela Coroa Portuguesa, tanto para dificultar a organização de levantes contra Portugal como para dificultar que os impostos fossem sonegados. Quem circulasse por um caminho não oficial, era acusado de descaminho, um crime de lesa-majestade.

Esses caminhos, em sua maioria, não foram criados pelos portugueses pois eles usavam as trilhas indígenas para avançar pelo interior do Brasil e, com a oficialização de um caminho como real, ele era alargado e melhorado através da mão de obra escrava. Para abrigar, alimentar e controlar o fluxo de pessoas e mercadorias, surgiram vilas e cidades às margens dos caminhos reais.

O primeiro caminho real para o escoamento do ouro ligava Paraty à Vila Rica, hoje conhecida como Ouro Preto. Como os navios iam de Paraty para o Rio de Janeiro, para então cruzarem o oceano, no século XVIII a Coroa Portuguesa estabeleceu um novo caminho, ligando Ouro Preto à cidade do Rio de Janeiro, diminuindo o tempo de transporte e a possibilidade de contrabando. Com isso, ficaram estabelecidos o Caminho Velho e o Caminho Novo.

Com a descoberta de diamantes na região do Serro Frio, em 1729 foi criado o caminho real que ligava Vila Rica (Ouro Preto), a sede da capitania, ao Arraial do Tijuco (Diamantina). Esse é o caminho que, hoje, conhecemos como Caminho dos Diamantes.

O Caminho Velho possui uma extensão, conhecida como Caminho do Sabarabuçu, ligando Glaura, um distrito de Ouro Preto, a Barão de Cocais. Essa rota de 160 km foi criada por acreditarem que havia ouro no alto da Serra da Piedade, mas como só acharam minério de ferro, o caminho ficou em segundo plano.

 

Fontes

Instituto Estrada Real http://www.institutoestradareal.com.br/estradareal

Governo do Estado de Minas Gerais https://www.mg.gov.br/conteudo/conheca-minas/turismo/estrada-real

InfoEscola https://www.infoescola.com/brasil-colonia/estrada-real/

Tiradentes.Net https://www.tiradentes.net/estradareal.htm

Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_Real

IdasBrasil https://idasbrasil.com.br/historia-estrada-real-minas-gerais

Abaixo está a lista de algumas hospedagens que usei, organizadas em ordem alfabética pelo município a que pertencem.

Casa Grande
Pousada Casa Grande
31 98389-7151

Conceição do Mato Dentro
Átis Hotel
https://www.atishotel.com.br/

Cunha
Pousada Pedacinho do Céu
https://www.facebook.com/pousadapedacinhoceu/

Diamantina
Pousada Acayaca
(38) 3531-8383
(38) 9 8852-4505
Instagram: @grupoacayaca

Mariana
Pousada Ouro Real
(31) 3557-1767
Email: reservas@pousadaouroreal.com.br
Instagram: @pousadaouroreal

Milho Verde
Pousada Cachoeiras de Milho Verde
https://www.facebook.com/pousadacachoeirasdemilhoverde/
Instagram: @pcachoeirasdemilhoverde

Santo Antônio do Norte (Tapera)
Pousada Recanto de Tapera
(31) 99307-2797
https://www.facebook.com/recantodetapera/

Tiradentes
Pousada Travessias
(32) 98454 6150
E-mail: pousadatravessias@gmail.com
Instagram: @pousadatravessias

Ubatuba
Suítes D&K
https://www.airbnb.com.br/users/106049784/listings

Abaixo está a lista, em ordem alfabética pelo município a que pertencem, dos locais onde comi e gostei. Os locais que não gostei eu prefiro não citar pois a experiência ruim pode ter sido uma exceção.

Carrancas
Restaurante Roda Viva

Casa Grande
Churrascaria Casa Grande

Catas Altas
Armazém Catas Altas

Conceição do Mato Dentro
Restaurante Solar da Lili

Diamantina
Restaurante Grupiara

Mariana
Restaurante Lua Cheia
Restaurante Rancho

Milho Verde
Restaurante Engenhoca Real
Sorveteria Delícias do Milho

Ouro Preto
Restaurante e Pizzaria Tropea

Paraty
Sorveteria SorveTerapia

Santa Bárbara
Pizzaria e Churrascaria Oásis

Tiradentes
Restaurante do Celso

Dias de viagem: 25

Dias de pedal: 19

Distância pedalada: 1.230,3 km

Elevação acumulada: 23.887 m

Pneus furados: 1 (entre Paraty e Ubatuba, já fora da Estrada Real)

Problemas na bicicleta: 0

Dias de sol: 3

Dias variando entre nublado e ensolarado: 2

Dias nublados mas sem chuva forte durante o pedal: 13

Dias de chuva constante: 7

     A Estrada Real pode ser feita, em sua quase totalidade, com um carro de passeio. Então, por que fazer pedalando?

     Responder “porque eu gosto de pedalar” é muito vago, afinal, é muito diferente fazer um pedal de um dia do que uma viagem, carregando bagagem. A primeira vantagem que eu vejo em relação a uma viagem de carro é que a integração ao ambiente é muito maior, um ciclista está muito mais exposto a tudo que o cerca que um motorista. Isso inclui sons, cheiros e uma melhor visualização da paisagem, já que a menor velocidade faz com que o ciclista repare em mais detalhes dos locais por onde passa. Vi inúmeros animais na beira da estrada que eu não teria encontrado se estivesse de carro. Também não teria visto a coruja pegar o calango e levá-lo em suas garras, assim como o sagui que não fugiu de mim, mas fugiu quando apareceu o primeiro carro.

     Outra vantagem é a facilidade com que um ciclista conhece pessoas, enquanto que um motorista é visto como apenas mais um turista e não desperta curiosidade dos moradores. Especialmente em cidades pequenas, onde as pessoas são mais abertas a conversar com estranhos, é muito comum algum morador puxar conversa para saber quem é aquele ser estranho.

     Por fim, existe o claro ganho de condicionamento físico mas, esse, eu não considero um fator importante, já que se fosse só por isso, eu poderia treinar todos os dias saindo e voltando para minha casa.

     Por outro lado, é claro que também há desvantagens, como a impossibilidade de levar todo meu equipamento fotográfico. Se fosse uma viagem com objetivo profissional eu não poderia ir de bicicleta, mas como eu estava em um misto de férias e de prospecção para um trabalho, não foi problema ter deixado em casa muitos dos equipamentos.

     Outra desvantagem é justamente o fato que eu citei como vantagem no primeiro parágrafo. Estar exposto ao ambiente faz a integração ser maior, mas passar o dia todo sob sol de 40 graus ou pegando chuva forte, é bastante desgastante e me fez sonhar várias vezes com o conforto do meu carro.

     A última desvantagem que eu vejo em uma viagem de bicicleta é que os deslocamentos para atrativos que não estão direto na estrada podem ser bem complicados, já que visitar uma cachoeira que fica a 15 km da estrada, em uma região com morros, vai levar mais de uma hora. E, se tiver que fazer uma trilha a pé, tenho que trancar a bicicleta em alguma árvore e carregar as mochilas comigo, enquanto que, de carro, basta dirigir alguns minutos e trancar o carro com as malas dentro.

     Se você chegou até essa parte do texto, deve ter ficado confuso sobre o que eu acho melhor e eu te entendo, pois eu também não sei dizer. Para trabalhar, sem dúvida eu prefiro viajar de carro mas, de férias, acho que os dois modos são igualmente fascinantes, cada qual à sua maneira.

   Quem nunca viajou sozinho costuma estranhar como alguém pode gostar de fazer isso sem companhia. A primeira coisa importante a esclarecer é que viajar sozinho não significa estar sozinho. Quem viaja acompanhado interage, na maior parte do tempo, apenas com as pessoas com quem viajou. Quem viaja sozinho fica muito mais propenso a conversar com desconhecidos pois, estando só, as pessoas do local se sentem à vontade para puxar papo. E isso vale inclusive para pessoas como eu, que não são extrovertidas. Em minhas viagens “solo” eu já fiz diversos amigos com quem mantenho contato ainda hoje, anos depois de tê-los conhecido, mas das viagens que fiz com amigos ou namoradas, não me lembro de ter feito nenhuma grande amizade.

   Viajando sozinho, sou responsável por cada decisão que pode refletir na minha saúde e, não tendo ninguém ao meu lado, sei que serei eu mesmo o responsável pelo meu resgate. Isso faz com que eu seja mais cuidadoso e, a cada problema que surja, eu mesmo terei que resolvê-lo, o que faz com que eu conheça e melhore minha capacidade de lidar com as adversidades e a não reagir de modo impulsivo.

   Outro motivo, na verdade o maior motivo pelo qual eu adoro viajar sozinho, é a liberdade. Poder fazer o que quiser, na hora que quiser, é uma delícia! Por exemplo, eu gosto de dormir cedo para acordar cedo e curtir o dia, não a noite. Se eu viajar com alguém que gosta de ir para um bar e ficar até tarde, todos os dias um de nós terá que fazer uma concessão para a vontade do outro, o que pode ser desgastante para ambos, em uma viagem longa. Essa liberdade vale para todas as inúmeras decisões que são tomadas em uma viagem: onde dormir, o que visitar, quando comer, quanto tempo ficar em cada lugar… E essa liberdade se estende às mudanças de roteiro, que são bastante comuns para quem viaja sem reservas antecipadas.

   Por outro lado, viajar sozinho costuma ser mais caro, já que são raras as hospedagens que cobram metade do valor do quarto se o turista estiver só. Se a viagem for feita de carro, bancar combustível e pedágio também sai caro. Em restaurantes, os pratos individuais costumam ser mais caros que a metade de um prato duplo. Aliás, falando em restaurantes, esse é o ponto que menos gosto quando viajo sozinho: ficar parado esperando o prato chegar. Normalmente, se estou sozinho, como em padarias, lanchonetes e locais onde sou servido em pouco tempo, só vou a um restaurante para comer algo que não posso perder.

   No primeiro parágrafo eu citei que viajar sozinho não é o mesmo que estar sozinho pois as conversas surgem naturalmente com desconhecidos. Mas também é verdade que viajar com uma pessoa com quem se tem grande afinidade é ótimo pois as conversas não se iniciam sempre com apresentações. Em uma viagem longa, depois de certo tempo, passa a ser cansativo responder sempre as mesmas perguntas, o que não ocorre quando se está com alguém com quem já há intimidade.

   Por fim, um comentário que vale apenas para viagens como essa, onde o condicionamento físico é importante: se pessoas que possuem condições físicas muito diferentes viajarem juntas, a pessoa mais treinada vai se cansar psicologicamente de tanto esperar e a menos condicionada vai se cansar fisicamente tentando acompanhar. Ou seja, ruim para as duas pessoas.

   Eu, como tenho bastante flexibilidade de datas, costumo fazer a maior parte das minhas viagens, sozinho. Mas mesmo se eu trabalhasse de segunda a sexta como grande parte das pessoas, acho que também faria mais viagens sozinho do que acompanhado porque a liberdade que eu citei no segundo parágrafo é viciante!

   Se eu tivesse que resumir todo esse texto em uma frase, diria que “viajar é a melhor coisa que se pode fazer sozinho”.

     Abaixo estão os relatos diários dessa incrível viagem. Além dos textos, em cada dia há uma imagem de satélite com o roteiro mas, se você quiser baixar o tracklog do caminho para usar em seu GPS, clique aqui e acesse minha página no Wikiloc, onde encontrará todo o trajeto que fiz.

03/10/2021 - De São Sebastião a Diamantina

   O primeiro dia de viagem foi apenas o deslocamento de São Sebastião, a cidade onde moro, no litoral norte de São Paulo, até Diamantina, na região central de Minas Gerais, ponto inicial da cicloviagem.

   Para chegar até Diamantina eu teria que pegar 3 ônibus, em uma viagem que levaria em torno de 27 horas, contando tempo em movimento e espera nos terminais. Mas como eu tenho sorte, fiquei sabendo que uma amiga havia pedido demissão, daí contei sobre a Estrada Real e ela resolveu fazer o caminho de carro, então eu peguei uma confortável carona e fizemos o percurso de 910 km em apenas 12 horas, contando paradas para abastecer o carro e os tripulantes.

   Chegando em Diamantina, fui direto para o Centro Histórico, onde fica a Pousada Acayaca. Depois de deixar minhas coisas e a bicicleta seguramente instalada dentro do quarto, saí em busca de um dos mais importantes objetivos dessa viagem: comer muita comida mineira, uma das culinárias mais saborosas que conheço.

Mesmo em cidades muito seguras, quem viaja de bike entende a felicidade que dá poder guardar a bicicleta dentro do quarto.

O primeiro de muitos jantares com comida tipicamente mineira.

Dia 01 - 04/10/2021 - Parque Estadual do Biribiri

   Distância: 36,3 km – Elevação acumulada: 751 m

   Depois de comer muito no café da manhã da Pousada Acayaca, finalmente comecei a cicloviagem pela Estrada Real, uma viagem que eu estava planejando há anos.

   Na primavera de 2019 e outono de 2020, não fiz porque fui para a Patagônia, onde passei quase 6 meses fotografando para o livro As Mais Belas Trilhas da Patagônia (clique aqui para ver fotos e descrição do livro). Na primavera de 2020 não consegui por causa da pandemia, assim como no outono de 2021. Agora, finalmente, hora de começar a pedalar, mesmo sendo apenas um bate-volta para o Parque Estadual de Biribiri, uma região muito bonita ao norte de Diamantina, com cachoeiras cercadas pelo cerrado mineiro e a Vila Biribiri, criada em 1876 para abrigar os funcionários de uma fábrica de fios e tecidos. Em seu auge, a vila chegou a abrigar 1.200 pessoas e, hoje, o movimento se dá pelo turismo.

   Não dediquei muito tempo ao Centro Histórico de Diamantina pois eu já o conheci em 2013, quando estava fotografando para o livro O Brasil da Copa, mas recomendo que reserve um dia para isso pois a cidade está bem cuidada e há diversos atrativos. Também já conhecia o Biribiri mas, antes de começar a pedalar de uma cidade a outra, queria testar se a bicicleta estava funcionando bem porque, daqui em diante, não seria fácil achar oficinas e peças para a bike.

Me refrescando do forte calor na Cachoeira dos Cristais.

Queda superior da Cachoeira do Sentinela.

Queda inferior da Cachoeira do Sentinela, vista do alto.

Queda inferior da Cachoeira do Sentinela, vista da base.

Vila Biribiri, antiga vila criada para abrigar funcionários da fábrica de tecidos.

Vila Biribiri

Vila Biribiri

Passadiço da Casa da Glória em Diamantina.

Mercado Municipal de Diamantina.

Pôr do sol visto do Morro do Cruzeiro em Diamantina.

Dia 02 - 05/10/2021 - De Diamantina a Milho Verde

   Distância: 41,5 km – Elevação acumulada: 1.027 m

   Agora sim comecei a viagem rumo a Paraty, mais de mil quilômetros à frente. A distância é longa mas, como tenho um mês inteiro para percorrê-la, não vou ter que me apressar.

   Mais um dia de sol e temperaturas muito altas. Infelizmente a bateria do sensor de temperatura do GPS descarregou e não consegui saber quão quente estava, mas não tenho dúvidas que passava dos 40 graus ao sol, já que eu gosto de pedalar no calor mas, hoje, sofri.

   O trajeto, que em sua maior parte é feito por estradas de terra, tem subidas íngremes mas oferece vistas lindas da Serra do Espinhaço, passando também por agradáveis vilarejos que servem de apoio aos cicloviajantes que querem uma bebida gelada e, claro algum quitute mineiro para recarregar as energias.

   Depois de deixar a bicicleta na Pousada Cachoeiras de Milho Verde, fui conhecer a pequena vila, que tem poucas ruas, todas de terra, e que em dia de semana é muito tranquila, quase sem turistas.

   Infelizmente, não consegui conhecer nenhuma cachoeira porque, das três que ficam bem próximas da vila, uma estava seca, o proprietário da outra estava de saída e a terceira tinha vários carros no estacionamento, então, nem me animei de vê-la e preferi voltar para a charmosa vila para comer mais um bom prato de comida mineira. De entrada, comi deliciosos pastéis de angu e, se você ainda não conhece, imagine que o pastel parece polenta frita recheada, uma delícia!

No início a estrada é asfaltada e dá pra pegar altas velocidades nas descidas íngremes. Nessa, o GPS Garmin marcou 86 km/h!

Povoado de Vau, com pouco mais de 100 habitantes.

Ponte sobre o Rio Jequitinhonha, ainda perto da sua nascente.

Vista da Pousada Cachoeiras de Milho Verde.

Milho Verde.

Dia 03 - 06/10/2021 - De Milho Verde a Tapera

   Distância: 77,8 km – Elevação acumulada: 2.308 m

   Após uma noite toda com chuva leve, a temperatura caiu bastante mas a chuva parou pouco antes de eu começar a pedalar. Dia longo e exaustivo, nem tanto pela distância mas por causa das longas e íngremes subidas. Além disso, as pernas ainda não estão acostumadas ao peso extra da bagagem, já que os treinos foram feitos sem as bolsas estanques.

   O visual de hoje foi ainda mais bonito que o do dia anterior mas, com as nuvens cobrindo os picos e a névoa tirando a visibilidade, não consegui boas fotos.

   Fiz uma breve parada em Serro e, mais breve ainda, em Alvorada de Minas, onde comi um pouco do que carregava e segui em frente pois havia uma longa distância até Santo Antônio do Norte, distrito mais conhecido como Tapera.

   Cheguei bem cansado em Tapera e os quilômetros finais, de Tapera até a Pousada Recanto de Tapera, que fica fora da vila, fiz com a moral bem baixa. Mas meu ânimo logo melhorou ao ver que a pousada fica em uma bela fazenda e, pra melhorar, ainda tinha um filhote de cachorro pampeano louco pra brincar, então lavei a bicicleta e fui me divertir com o doguinho, ou melhor, perrito, já que ele veio da Argentina.

   O dono da pousada chegou pouco depois e elevou a hospitalidade mineira, que já é grande, a outro nível. Durante um jantar com arroz, feijão feito na panela de ferro, frango e queijo minas feito na própria fazenda, ele me contou sua história como fotógrafo por 30 anos e os planos para a pousada, que está recebendo novo paisagismo e algumas melhorias.

Delicioso café da manhã da Pousada Cachoeiras de Milho Verde.

Serro.

Em uma estrada de terra, quando eu estava quase passando por cima de mais um galho, o galho saiu “correndo”… Era uma cobra que quase foi atropelada, escapou por pouco.

Santo Antônio do Norte, distrito mais conhecido como Tapera.

Pousada Recanto de Tapera.

Filhote de cachorro pampeano que mora na pousada.

Dia 04 - 07/10/2021 - De Tapera a Conceição do Mato Dentro

   Distância: 37,8 km – Elevação acumulada: 781 m

   Depois de uma noite muito bem dormida na Pousada Recanto de Tapera, me despedi do Nazaré, o dono da pousada, e seu filhote de cachorro, e segui para Conceição do Mato Dentro.

   Logo no começo fica o visual mais bonito do percurso mas, novamente, as nuvens baixas não deixaram as fotos mostrarem a beleza do lugar.

   As subidas desse dia não foram longas nem muito íngremes, o que me ajudou pois as pernas ainda estavam um pouco cansadas do esforço do dia anterior. Em alguns momentos o sol voltou forte mas não durou, parece que as nuvens vieram pra ficar.

   No meio do caminho está o charmoso povoado de Córregos, mas o ponto alto do dia foi ver uma coruja buraqueira pegar um calango e sair com ele nas garras. Tenho certeza que o calango discorda mas eu curti a cena e, a coruja, curtiu o almoço.

   Em Conceição do Mato Dentro me hospedei por duas noites no Átis Hotel para ter um dia sem pedal e fazer trekking para alguma cachoeira.

Córregos.

Conceição do Mato Dentro.

Dia 05 - 08/10/2021 - Trekking no Cânion do Peixe Tolo

   Conceição do Mato Dentro é famosa por suas muitas e lindas cachoeiras, especialmente a Cachoeira do Tabuleiro, a mais alta de Minas Gerais. Mas, com a forte seca, ela estava praticamente sem água, então achei melhor visitá-la na minha próxima viagem, depois do verão, para vê-la com toda sua beleza.

   Seguindo a dica do Thiago, um amigo trilheiro e remador, depois de tomar um excelente café-da-manhã no Átis Hotel, fui para o Cânion do Peixe Tolo. Por sorte, ainda pude deixar a bicicleta parada pois tive carona da mesma amiga que me levou até Diamantina, já que ela também estava na cidade.

   Dia feio, com nuvens baixas e rio quase seco, mas, mesmo assim, o cânion é tão bonito que valeu demais a caminhada. Ficamos pouquíssimo tempo no lago pois logo começou a chover e, como boa parte da caminhada é feita andando pelas pedras, não queríamos correr o risco de levar um tombo.

   De noite fui para o restaurante La Fattoria mas o hambúrguer que pedi demorou tanto, mas tanto, que cancelei e fui embora, ao ver que as mesas que haviam chegado depois de mim já haviam recebido os pratos, terminado de comer e acertado a conta. Nada como um bom carrinho de cachorro quente e hambúrguer na praça da cidade pra acabar com a fome e a raiva que eu estava do garçom do La Fattoria, que ficava falando “já está saindo” mas nunca trouxe o hambúrguer.

Cânion do Peixe Tolo.

Metade da trilha é feita caminhando pelas pedras.

Procure bem e você verá um fiapo de água caindo onde ficaria a Cachoeira da Bocaina, com 200 metros de altura. Na beira do lago tem uma pessoa, assim fica mais fácil de entender a dimensão dessa parede.

Dia 06 - 09/10/2021 - De Conceição do Mato Dentro a Itambé do Mato Dentro

   Distância: 63,0 km – Elevação acumulada: 1.870 m

   Após um dia de folga da bike, voltei a pedalar e sem uma parada definida, pois não tinha reserva em nenhuma pousada entre Conceição do Mato Dentro e Mariana. Então, poderia parar só quando cansasse ou achasse um local que me fizesse querer ficar.

   O caminho até Morro do Pilar tem 27 km, passando por pequenos morros e fazendas. Honestamente, não vi graça na paisagem entre Conceição e Morro e, desde minha saída, é o primeiro trecho que eu não sentiria falta se não tivesse passado. Além da falta de beleza, no fim de uma descida, quando eu estava entre 40 e 50 km/h, dei de cara com um mata-burros com as barras paralelas à estrada, em vez de estarem na perpendicular. Tanto frear como passar na diagonal, àquela altura, era impossível, então tentei alinhar as rodas em uma das barras e, felizmente, deu certo, senão a bicicleta ficaria presa e eu sairia voando por cima dela. Depois que comentei sobre isso nas redes sociais, recebi várias mensagens de pessoas que sofreram acidentes de bicicleta ou moto. Tem que ser muito burro para projetar um mata-burros assim e, mais incrível ainda, é que não corrigem o problema. Para exemplificar, coloquei fotos do problema e da solução, que é muito simples.

   De Morro do Pilar pra frente o caminho fica mais bonito, especialmente os 10 km antes de Itambé do Mato Dentro, com vista para as serras ao redor da estrada. Não foi um dia de pedal muito pesado, com temperatura agradável, céu sempre nublado e com chuva leve em vários momentos.

   Chegando em Itambé, resolvi procurar uma pousada para, depois, conhecer a Cachoeira da Vitória, que é acessada por uma curta trilha. Mesmo com as chuvas leves que começaram nos últimos dias, o volume de água continua pequeno mas, mesmo assim, é uma cachoeira muito bonita.

Estrada entre Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro.

Estátua do Violeiro e os dois primeiros cicloturistas que encontrei em minha viagem.

Itambé do Mato Dentro.

Aproveitando a ausência de turistas, aproveitei pra tomar um banho pelado na Cachoeira da Vitória.

De noite, em dia de semana e fora de temporada, os únicos lugares pra comer em Itambé do Mato Dentro são os carrinhos de sanduíches. Em um deles também é feito macarrão na chapa, que pode não estar bonito nessa quentinha, mas estava bem gostoso.

No dia em que quase caí no mata-burros, não parei para fotografar porque logo depois vieram 3 cachorros atrás de mim, mas como encontrei vários iguais, coloquei a bicicleta em um deles para mostrar de modo bem claro o que pode acontecer.

Aqui já foi feita uma adaptação para que motos e bicicletas possam atravessar o mata-burros de forma segura. Não é difícil, basta um pouquinho de boa vontade das prefeituras.

Dia 07 - 10/10/2021 - Itambé do Mato Dentro

   A previsão de confirmou e a chuva, que nos últimos 4 dias vinha e voltava, mas quase sempre fraca, agora veio com força. Hoje ela até deu umas tréguas e fiz uma rápida caminhada para a Cachoeira do Lúcio, a mais próxima de Itambé. Também consegui sair para almoçar em um dos poucos restaurantes abertos, que fica dentro de um camping, mas a comida estava ruim e o preço, alto. Fiquei com saudades do macarrão na chapa que comi na noite anterior, feito em um trailer e servido em uma quentinha, mas muito mais gostoso e barato.

   Depois do almoço, brinquei um pouco com os cachorros da pousada e, depois, passei a tarde toda lendo, assistindo filmes e descansando as pernas.

Cachoeira do Lúcio.

 

Vaca curiosa que estava pastando no terreno vizinho da pousada.

Cachorro na pousada.

Mais um cachorro na pousada.

Dia 08 - 11/10/2021 - Parado em Itambé do Mato Dentro

   Chuva forte a noite toda e, também, durante o dia. Hoje não deu trégua nem pra que eu pudesse sair pra almoçar sem me molhar, então fui na padaria mais próxima e comi uns pedaços de rocambole e pães de queijo.

   Outro dia deitado na cama com Kindle e Netflix mas, se amanhã a chuva continuar, sigo em frente mesmo assim. É claro que é possível pedalar com chuva mas, além do desgaste físico ser bem maior, a bicicleta também sofre com muita lama na corrente e, o pior de tudo, é que não vejo as paisagens que são o motivo da minha viagem.

Dia 09 - 12/10/2021 - De Itambé do Mato Dentro a Santa Bárbara

   Distância: 91,6 km – Elevação acumulada: 2.128 m

   Vencido pelo tédio, eu estava decidido a seguir em frente mesmo com chuva forte mas, pra minha sorte, ela parou. Ainda chovia em alguns momentos mas era chuva fraca, nada que fosse piorar muito a condição das estradas, que em alguns locais estavam intransitáveis pela lama bem espessa e pegajosa, que grudava na corrente, cassete e freios.

   Havia decidido ir até Cocais e, às 14:00, já havia chegado e visto o pequeno Centro Histórico, então segui em frente por mais 22 km, parando em Santa Bárbara.

   Dia longo mas, depois de dois dias de descanso, estava com vontade de pedalar bastante e as pernas estavam prontas pra isso.

No dia de Nossa Senhora Aparecida as igrejas estavam cheias em todas as cidades por onde passei.

Na Vila de Cocais, esse é o único sobrado do séc. XVIII que resistiu ao tempo.

Dia 10 - 13/10/2021 - De Santa Bárbara a Catas Altas

   Distância: 24,0 km – Elevação acumulada: 515 m

   Como ontem eu pedalei mais do que imaginei, hoje o pedal foi curto, já que eu não passaria direto por Catas Altas, uma vila que há tempos me desperta interesse. No caminho, fiz uma parada para conhecer o Bicame de Pedra, que são as ruínas de um aqueduto construído em 1792 para captar água no alto da Serra do Caraça e levá-la para Brumado, onde ocorria a extração e lavagem do ouro. Hoje restam apenas 100 metros dessa estrutura que, na época, custou em torno de 15 kg de ouro. Convertendo para 2021, isso dá quase 5 milhões de reais e, vale lembrar, naquela época a mão de obra era escrava.

   Pouco depois de sair do Bicame, encontrei um sagui que estava tranquilamente comendo algum tipo de fruto ou castanha que pegava na estrada. Fiquei alguns minutos observando e fotografando, até que apareceu um carro, ele se assustou e eu voltei a pedalar.

   Cheguei no começo da tarde em Catas Altas, achei uma pousada e ainda tive tempo de ir para a Cachoeira do Maquiné, que é muito bonita mas, de onde eu estava, os galhos atrapalhavam para fotografar. Então, apenas fiz umas fotos nos poços acima da queda d’água e da vila de Catas Altas vista da trilha.

Bicame de Pedra, aqueduto construído em 1792.

Parte superior do Bicame de Pedra, por onde a água corria desde o alto da Serra do Caraça até a vila de Brumado.

Sagui próximo ao Bicame de Pedra.

Sagui próximo ao Bicame de Pedra.

Poço acima da Cachoeira do Maquiné.

Catas Altas.

Catas Altas.

Dia 11 - 14/10/2021 - De Catas Altas a Mariana

   Distância: 58,4 km – Elevação acumulada: 1.112 m

   Catas Altas tem atrativos para me ocupar por mais dias mas, quando viajo de bicicleta ou caiaque, gosto de ficar em movimento, então pedalei até Mariana, uma das mais famosas cidades históricas de Minas Gerais.

   No caminho, passei por Bento Rodrigues, o vilarejo que foi soterrado quando a barragem da Samarco se rompeu em 2015. É triste ver as casas destruídas e se lembrar de tantas mortes, não só de pessoas como também de animais. Aliás, 312 famílias ainda não foram indenizadas, mais de seis anos depois, dá pra acreditar? Dá, né, estamos no país da impunidade.

   Quase chegando em Camargos, vi uma cachoeira ao lado da estrada e, é claro, parei para um banho e fazer um lanche. Revigorado, segui até a bela Pousada Ouro Real, que fica ao lado da Catedral da Sé, em uma das construções mais antigas de Mariana, com mais de 325 anos!

   Depois de um bom e necessário banho, saí a pé para conhecer o Centro Histórico e foi ótimo ver que as construções estão quase todas em bom estado de conservação.

   De noite, mais uma caminhada e um grande prato de comida mineira devorado com a consciência tranquila de quem gastou milhares de calorias durante o dia.

Na região de mineração, é comum encontrar placas com indicações das rotas de fuga para o caso do rompimento de alguma barragem. Até então eu só havia visto esse tipo de placa em regiões com possibilidade de tsunami, como no Havaí e Chile, mas aqui, tão longe do mar, é perturbador haver necessidade de um aviso desses.

Uma das muitas casas destruídas pelo rompimento da barragem. Repare que a lama secou e ainda está cobrindo parte da construção. Se é uma cena impactante para mim, nem imagino como pode ser para quem vivenciou isso.

Eu segui o caminho fornecido pelo Instituto Estrada Real mas ele está desatualizado e me levou direto para um lago, que antes do rompimento da barragem, não existia. Demorei um tempo procurando o caminho certo, até que encontrei um segurança da mineradora e ele me guiou até o caminho correto.

Cachoeira de Camargos.

Cachoeira de Camargos.

Fazendo um lanche depois de um refrescante banho.

Mariana.

Praça Gomes Freire em Mariana.

No pelourinho em Mariana, reparem que há uma balança, o símbolo da justiça, e uma espada, o símbolo da condenação. Condenação eu tenho certeza que os escravos recebiam, mas justiça…

Catedral da Sé em Mariana.

Dia 12 - 15/10/2021 - Cachoeira da Serrinha e Pico da Cartuxa

   Depois de um excelente café da manhã na Pousada Ouro Real, deixei a bicicleta descansar e fiz uma trilha a pé para a Cachoeira da Serrinha. A trilha é curta e tem poucas subidas, levando a uma sequência de quedas d’água baixas mas muito bonitas. A que eu gostei mais foi essa da foto, pena que o céu estava bem fechado e só dei um rápido mergulho.

   Ao voltar para Mariana, mais um farto prato de comida mineira (não pedalei mas mereço mesmo assim…rs) e, no fim do dia, segui a dica do Alex, da Pousada Ouro Real, e fui para o Pico da Cartuxa para fotografar o pôr do sol e ver as cidades de Mariana e Ouro Preto no início da noite.

Cachoeira da Serrinha.

Pôr do sol no Pico da Cartuxa.

Mariana e Ouro Preto (no alto, lado esquerdo) vistos a partir do Pico da Cartuxa.

Dia 13 - 18/10/2021 - De Mariana a Ouro Preto

   Distância: 14,7 km – Elevação acumulada: 602 m

   Esse foi o dia de pedal mais curto mas, assim mesmo, foi marcante porque completei o Caminho dos Diamantes, que vai de Diamantina a Ouro Preto.

   Pedalei, em nove dias, 445,1 km, com 11.102 m de elevação acumulada. Nesse tempo, comi 48 pães de queijo, o que dá uma média de 9,3 km por pão de queijo. Estou consumindo mais que meu jipinho!

   Além dos nove dias de pedal, dois dias foram dedicados ao trekking, um dia descansei quase todo o tempo, exceto por um trekking curto e outro dia passei inteiro deitado, lendo e vendo filmes, já que estava chovendo demais.

   Deixando os números de lado, quando cheguei em Ouro Preto, fiz umas fotos em frente ao Museu da Inconfidência, deixei a bicicleta na pousada e fui caminhando conhecer o Centro Histórico.

   Ouro Preto tem construções imponentes e muitas estão em ótimo estado de conservação, mas outras merecem com urgência uma restauração ou, ao menos, uma boa pintura. Infelizmente, os museus que mais me interessariam conhecer, inclusive o Museu da Inconfidência, ainda estão fechados por causa da pandemia, então a visita foi mais curta do que imaginei e aproveitei esse tempo para me sentar aos pés da estátua de Tiradentes. Lá, fiquei observando o vaivém dos turistas e, por uma meia hora, fiz isso ao som de um acordeão que estava sendo tocado por um senhor que disse que sempre sonhou em tocar em Ouro Preto. Pelo visto, não fui eu o único a completar uma meta da lista de desejos hoje.

Chegando em Ouro Preto.

Museu da Inconfidência.

Dia 14 - 17/10/2021 - De Ouro Preto a Congonhas

   Distância: 62,28 km – Elevação acumulada: 1.370 m

   Depois de pesquisar sobre o início do Caminho Velho, que é o que leva até Paraty, decidi mudar o roteiro inicial para incluir a Cachoeira de Itatiaia (não confundir com o Parque Nacional do Itatiaia, bem longe daqui), que faz parte do Caminho Novo.

   Apesar do tempo feio, a curta, íngreme e perigosa trilha até a base da cachoeira rendeu um ótimo banho e umas fotos razoáveis. Escrevi que a trilha é perigosa porque em alguns pontos é preciso se puxar por galhos, raízes ou cordas e um escorregão resultaria em uma grande queda. Por isso, a bicicleta ficou em uma casa um pouco distante do início da trilha.

   Depois segui para Ouro Branco, fiz um lanche na praça em frente à igreja matriz e voltei para a estrada, parando somente em Lobo Leite para conhecer o minúsculo vilarejo. Daí em diante, larguei o Caminho Novo e segui pelo Caminho Velho até Congonhas.

   Em Congonhas, parada obrigatória na basílica para ver as estátuas dos 12 Profetas, esculpidas por Aleijadinho e seus assistentes, um jantar razoável no restaurante do Museu de Congonhas e um bom descanso para os joelhos porque, hoje, comecei a sentir uma dor nova, apesar do pedal não ter sido muito puxado.

Ouro Preto vista do início da estrada para Ouro Branco.

Cachoeira de Itatiaia.

Lobo Leite.

Vaca dando uma checada na bicicleta.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Congonhas.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Congonhas.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Congonhas.

Dia 15 - 18/10/2021 - De Congonhas a Casa Grande

   Distância: 75,3 – Elevação acumulada: 1.599 m

   Depois de tomar café da manhã bem cedo no Hotel dos Profetas, saí de Congonhas e fui na direção de Pequeri por uma estrada com calçamento que, depois de uns quilômetros, virou terra e, então, virou lama, daquela bem pegajosa. Em alguns trechos, com certeza carros de passeio atolariam e a relação da bicicleta começou a sofrer com a mistura de lama e areia. Então, ao chegar em Pequeri, preferi poupar a bike, que já está merecendo uma revisão, e pegar o asfalto até São Brás do Suaçuí, onde tomei meu segundo café da manhã: um salgado e um pedaço generoso e delicioso de torta suíça. Aliás, preciso aprender a fazer essa torta.

   De São Brás até Entre Rios de Minas, continuei pelo asfalto mas, dali em diante, só terra e um pouco de lama até Casa Grande, uma cidade com pouco mais de 2 mil habitantes.

   Nesse trecho, a única parada foi para fotografar o marco da Estrada Real que fica em frente à Capela dos Olhos d’Água. Há centenas desses marcos sinalizando o caminho e, desde o primeiro dia de pedal, estava em busca de um que tivesse um visual bonito no fundo… Hoje encontrei!

   No fim das fotos a fome foi apertando e as nuvens estavam cada vez mais escuras e carregadas. Uma das muitas coisas que eu não gosto é passar fome e gosto menos ainda de passar frio, então segui meio cambaleante até Casa Grande, mesmo porque, em cidades muito pequenas, os restaurantes fecham cedo.

   Cheguei no único restaurante da cidade às 13:30 e… Adivinha? Fechado! O lado bom é que cidade pequena não tem burocracia e me deixaram entrar para comer o que havia restado do bufê: beterraba, tomate, alface, arroz, tutu de feijão e dois filés de frango. Precisa mais que isso?

   Quando comecei a comer o primeiro prato, a chuva começou. Quando terminei o segundo prato, a chuva parou e fui para a pousada, que é bem agradável e sou o único hóspede, paz total!

   Ao chegar na pousada a chuva recomeçou e ficou forte ao menos até as 22:00, quando fui dormir depois de comer alguns salgadinhos e doces que sempre carrego comigo para momentos como esse, em que seria ruim sair sob forte chuva para procurar uma padaria ou lanchonete aberta. Isso se encontrasse, já que provavelmente estariam fechadas.

Entre Rios de Minas.

Capela dos Olhos d’Água e marco da Estrada Real.

Dia 16 - 19/10/2021 - De Casa Grande a Tiradentes

   Distância: 72,4 km – Elevação acumulada: 1.549 m

   Como eu era o único hóspede na Pousada Casa Grande, pude escolher o horário do café da manhã e a Dona Madalena, sempre muito simpática e prestativa, deixou o café pronto às 06:00.

   Comecei a pedalar às 07:00 e, depois de uma tarde e noite de muita chuva, é claro que a estrada estava pura lama. Tive até que parar para remover, com um galho, a lama que já estava travando a relação da bicicleta.

   A primeira parada foi em Lagoa Dourada, que é famosa na região pelo seu rocambole. Eu, como não sou de recusar doces, comi um de doce de leite com coco. Estava bom mas, por tanta fama, assumo que esperava um pouco mais. Na próxima visita à Lagoa Dourada, vou experimentar em outra doceria.

   De Lagoa Dourada para Prados a estrada tinha lama mais líquida, o que atrapalha menos, então o pedal rendeu melhor. Em Prados, foto clichê de uma igreja de pedras e segui para Bichinho, um vilarejo próximo à Tiradentes que é famoso pelos artesanatos e restaurantes. Local agradável mas não fiquei muito tempo, já que as nuvens estavam cada vez mais carregadas.

   Pouco depois alcancei o Ícaro, um cicloturista que conheci em Ouro Preto. Conversamos um pouco enquanto pedalávamos mas, como eu tinha menos bagagem, logo me distanciei dele para fugir da chuva. Tentativa que quase deu certo, já que a forte chuva me pegou alguns quilômetros antes de chegar na bela Pousada Travessias, em Tiradentes, e ser muito bem recebido pelo Marco e Adriana.

   Com algumas horas livres, fui até São João del-Rei para conhecer seu centro histórico e, claro, comer.

Lagoa Dourada.

Bichinho.

São João del-Rei.

Dia 17 - 20/10/2021 - Tiradentes

   Depois de um excelente café da manhã na Pousada Travessias, deixei a bicicleta guardada e caminhei pelo Centro Histórico de Tiradentes, que está muito bem conservado.

   Em algumas cidades, há prédios em bom estado em meio a outros que precisam de reforma, mas aqui, quase todas as construções do Centro Histórico estão bem cuidadas.

   Claro que não poderia faltar um bom almoço com comida mineira e eu segui a recomendação do Marco, da Pousada Travessias, e fui no Restaurante do Celso: ambiente simples, comida farta, preço bom e muito saborosa! Ao menos o prato que eu comi (Tutu à Mineira), posso recomendar sem medo. Depois fui comer a sobremesa em uma padaria onde havia visto doces lindos mas eles eram mais bonitos que gostosos.

   Em toda viagem eu faço amigos caninos e já brinquei com muitos vira-latas mineiros nessas semanas, a diferença é que aqui em Tiradentes eles têm passe livre: entram em lojas, restaurantes, padarias… Um deles me adotou e, quando entrei em um museu, seguiu ao meu lado. Se eu parasse por muito tempo ele deitava e me esperava. Quando eu andava, ele andava ao meu lado. Até que subi uma escada, ele foi relutante até o meio, ficou com medo e desceu. Mas, depois de um tempo, uma turista veio me avisar que ele havia subido a escada e estava chorando pra me chamar. Fui até lá, ele abanou o rabo, desceu a escada e saímos do museu, já que o funcionário estava sem jeito de botar o cachorro pra fora na minha frente. Ainda bem que meu cachorro não usa a internet, ele ficaria com ciúmes.

Café da manhã na Pousada Travessias com produtos regionais feitos por pequenos produtores.

Tiradentes.

Tiradentes.

Tiradentes.

Cachorro que me seguiu até mesmo dentro do museu.

Dia 18 - 21/10/2021 - De Tiradentes a Carrancas

   Distância: 87,0 km – Elevação acumulada: 1.727 m

   Como já havia visitado São João del-Rei há dois dias, hoje passei direto pela cidade na direção de Carrancas, meu próximo destino.

   O caminho só ficou realmente bonito nos últimos 28 km, a partir da travessia da balsa entre Caquende e Capela do Saco. A balsa, aliás, é bem interessante pois adaptaram um trator para servir de motor e controlar a direção e velocidade. Muito simpático, o balseiro não queria cobrar a travessia mas eu insisti, afinal, é o trabalho dele.

   Enquanto esperava, em um bar, o horário da travessia, conheci o Sebastián, um cicloviajante do Equador que está há 16 meses pedalando pela América do Sul. Papo divertido, ainda descobri que ele também é fotógrafo e já pedalou junto com uma brasileira que eu hospedei há alguns anos em São Sebastião.

   Quando fui me despedir do Sebastián, os donos do bar falaram que haviam feito almoço e nos convidaram para comer. Na verdade o convite era pro equatoriano, que estava lá desde ontem e conhecia melhor o casal, eu fui convidado por educação. Agradeci mas recusei porque não queria perder a balsa, senão teria que esperar mais uma hora para atravessar. Recusar comida não é algo que faço com frequência mas, hoje, foi necessário.

   Enquanto a balsa não chegava, uma gatinha ficou miando e, quando me agachei, veio correndo se esfregar em mim. Coitada, acho que está se lambendo até agora pra se limpar. Pensei que estivesse com fome mas não quis o que eu dei, acho que só estava tentando adotar um humano. Ainda bem que estou de bicicleta, senão é bem possível que ela teria ido comigo pra casa.

   Voltando a falar do caminho, depois da balsa a paisagem vai ficando cada vez mais bonita, com a aproximação da bela Serra de Carrancas, que se parece com uma chapada.

   Carrancas tem vários restaurantes que dizem que são bons mas hoje eu não precisava só de comida boa, também tinha que ser farta, pois o pedal foi longo e a fome estava enorme. Seguindo a orientação de uma amiga (obrigado, Gabi), jantei no Roda Viva, um restaurante por quilo com comida excelente. Aliás, faltou pouco pro meu prato ter um quilo, estou ficando bom nisso!

   Ah, hoje vi mais alguns tucanos, nos últimos dias eles estão sempre presentes. Minha dúvida é se estou vendo vários porque há muitos ou se é porque estamos invadindo ainda mais o habitat deles.

   Na pousada, fiz amizade com mais um cão e ele resolveu passar a noite deitado no capacho do meu chalé, é muito fácil fazer amizades em Minas Gerais!

Sebastián, o cicloviajante equatoriano que está há 16 meses na estrada.

Gatinha que conheci na travessia da balsa em Caquende.

Gatinha que conheci na travessia da balsa em Caquende.

Balsa na Represa de Camargos.

A balsa é controlada por um trator adaptado.

Marco da Estrada Real e a Serra de Carrancas, que é preciso atravessar para chegar na cidade.

Dia 19 - 22/10/2021 - Carrancas

   Finalmente, sol! Depois de duas semanas com muita chuva e dias quase sempre nublados, hoje o sol reapareceu, principalmente de tarde. Momento perfeito pois o que Carrancas tem de melhor são suas cachoeiras e, seguindo a recomendação de um amigo (valeu, Danielzinho), fui para o Complexo da Zilda.

   Em uma área particular com entrada paga, a trilha segue o rio e, em alguns momentos, é preciso atravessá-lo. Depois de 1,5 km a trilha acaba na confluência de dois rios: em um, há uma cachoeira com uns 8 metros e, no outro, há uma bela corredeira, formando um visual incrível!

   A partir dali, pra quem estiver acompanhado de um guia local e colete de flutuação, é possível dar uma escaladinha em uma pequena queda d’água e seguir nadando por dentro de um cânion, até chegar à última cachoeira do complexo, que tem entre 6 e 8 metros.

   Depois, uma passada rápida para ver a Cachoeira da Fumaça, que é apenas bonitinha, não se perde muito em não conhecê-la.

   Por fim, voltei para o chalé, sentei na varanda e fiquei brincando com os cachorros e o gato até o pôr do sol.

   O jantar foi no restaurante que está em primeiro lugar no Trip Advisor mas, honestamente, o restaurante por quilo de ontem foi muito melhor!

Cachoeira dos Anjos.

Racha da Zilda.

Cachoeira no fim da Racha da Zilda.

Pôr do sol em Carrancas.

Dia 20 - 23/10/2021 - De Carrancas a Caxambu

   Distância: 89,5 km – Elevação acumulada: 1.589 m

   De volta à estrada, o caminho entre Carrancas e Caxambu é longo mas as subidas não são íngremes, então foi um dia tranquilo.

   Sem tucanos como nos dias anteriores ou paisagens marcantes como em quase toda a viagem, só parei para fotografar um carcará e a Fazenda Traituba, que infelizmente não está aberta à visitação. Segundo dizem, D. Pedro I se hospedou nessa fazenda quando passou pelo sul de Minas Gerais mas é difícil saber se é verdade, em todo lugar dizem que Dom Pedro se hospedou ou ia se hospedar mas não apareceu.

   Vale comentar que passei por plantações de eucaliptos e a estrada de terra estava cheia de caminhões com 20 metros de comprimento. Até aí, tudo normal… O que me surpreendeu é que quase todos os caminhoneiros diminuíram a velocidade ao cruzar comigo. Um deles até parou e esperou minha passagem para seguir em frente. Como a estrada era bem larga, não fizeram isso por perigo de atropelamento, foi para não fazer muita poeira. Respeito e empatia não deveriam nos surpreender mas, como isso é raridade, acho legal elogiar e, é claro, agradeci a todos quando nos cruzamos.

   Em Caxambu não fiquei em pousada, melhor que isso, quem me hospedou foi um casal de amigos do trekking. Além de excelentes anfitriões, eles têm 3 cachorros, então me diverti com a bicharada enquanto conversávamos. Nivia e Rodrigo, muito obrigado!

Me despedindo do Negão e do Gris.

Fazenda Traituba.

Carcará posando para a foto entre Traituba e Cruzília.

Dia 21 - 24/10/2021 - De Caxambu a Itanhandu

   Distância: 63,5 km – Elevação acumulada: 941 m

   Acordei às 06:00 com o céu nublado, mas sem chuva. Logo, tudo mudou e a chuva veio, apesar da previsão falar que só choveria de tarde. Meus amigos até disseram que eu poderia ficar mais um dia, mas como a previsão era de piorar ainda mais, esperar não resolveria.

   Um pouco depois das 09:00, a chuva virou garoa e eu saí. É lógico que, assim que virei a esquina, ela voltou, era só uma trégua para enganar ciclista besta. Felizmente, em pouco tempo a chuva parou e segui até o fim do pedal no seco, que sorte!

   Trajeto fácil, sem nenhuma subida íngreme, tendo apenas que me cuidar nos trechos de asfalto por causa dos caminhões. Aliás, ontem eu escrevi sobre o respeito e empatia dos caminhoneiros que levavam madeira mas foi só ontem mesmo, hoje tudo voltou ao normal e a maior parte dos motoristas, sejam amadores ou profissionais, continuam passando rente.

   Hoje, em duas cidades diferentes, encontrei mapas da Estrada Real em locais públicos. Foi a primeira vez que vi, durante a viagem, e seria interessante se as outras cidades adotassem essa prática para ajudar a divulgar o roteiro.

   No caminho, passei por São Lourenço, cidade bem turística onde apenas fiz uma foto na estação de trem. Depois, Pouso Alto e, por fim, Itanhandu, onde resolvi pernoitar.

   Ah, Itamonte também faz parte da Estrada Real mas teria que dar uma volta boa para passar por lá antes de chegar em Itanhandu. Como já estive várias vezes em Itamonte, cortei do meu roteiro sem dó.

Pouso Alto.

Mapa da Estrada Real em Pouso Alto.

Dia 22 - 25/10/2021 - De Itanhandu a Guaratinguetá

   Distância: 82,2 km – Elevação acumulada: 838 m

   Dia de deixar Minas Gerais e entrar em São Paulo, o estado onde nasci, cresci e envelheci. Antes que alguém queira ser gentil e falar que não sou velho, quando estava andando por Guaratinguetá, ao passar por 3 pessoas na faixa dos 18 anos, um deles falou “oi tio”. Pô, em Minas as pessoas só falavam “ei” ou “opa”, nada desse negócio de “tio”, acho que preciso voltar pra lá. Aliás, depois de 73 pães de queijo em 22 dias, será que já posso dar entrada no pedido de cidadania mineira?

   Voltando a falar do caminho, agora nada mais é novidade; a Mantiqueira, que é linda, já é uma velha conhecida. As cidades por onde passei hoje e as que passarei até o fim da viagem, também. Confesso que isso faz o pedal perder boa parte de seu encanto, já que gosto de fazer cicloviagens em locais que não conheço.

   O dia amanheceu nublado (novidade!) mas sem chuva, então logo peguei a estrada para cruzar a Mantiqueira. Chegando em Passa Quatro, vi que as nuvens estavam encobrindo o colo por onde eu passaria e fiquei curioso para saber como estaria o tempo do outro lado da serra.

   A subida não é pesada e, mesmo com forte vento contra, logo eu estava na divisa dos estados e parei para decidir se pegaria uma trilha de 3 km ou se seguiria morro abaixo pelo asfalto. De acordo com um ciclista que conversei em Passa Quatro, as chuvas devem ter feito a trilha virar puro barro.

   Somando isso ao fato de que, sempre que passei nesse trecho de carro eu fiquei pensando como seria legal descer com a bike, não tive dúvidas do que fazer. Coloquei o corta-vento porque o frio estava forte e deixei a gravidade trabalhar por mim.

   No fim da descida, tudo plano por mais de 30 km até Guaratinguetá. Ao entrar na cidade, vi que quase todo o comércio está fechado e perguntei para um morador, daí ele me explicou que é o Dia de Frei Galvão. Depois perguntei para o Google e ele me explicou que, no dia 25 de outubro de 1988, Frei Galvão foi beatificado pelo Papa João Paulo II e é o primeiro santo brasileiro.

   Tentei almoçar em um restaurante mas a má vontade da recepcionista com relação à bicicleta me fez ir embora, então parei em uma pastelaria. O dono não tinha má vontade, ele era grosso mesmo, mas ao menos ali eu conseguia olhar a bike enquanto comia.

   Ainda era cedo (13:30) e fiquei com vontade de seguir em frente, mas como não achei um ponto bom de hospedagem no meio do caminho para Cunha, fiquei em Guaratinguetá. Depois de dois péssimos atendimentos, no hotel eu fui muito bem recebido, nada como conversar com gente que não tem raiva do próprio trabalho.

   Hora de descansar as pernas porque amanhã acho que as subidas serão fortes, nada das molezas que peguei ontem e hoje.

Ótima atitude que vi em Passa Quatro, casinha e ração para os cachorros de rua.

Cruzando a Mantiqueira em meio à forte neblina.

Dia 23 - 26/10/2021 - De Guaratinguetá a Paraty

   Distância: 98,7 km – Elevação acumulada: 1.840 m

   Acabou a Estrada Real!

   Saí às 07:10 de Guaratinguetá com o plano de chegar em Cunha, almoçar e seguir para a Pousada Cantinho do Céu. Só que cheguei em Cunha às 10:10, cedo demais para almoçar e pensei que poderia ir direto até Paraty.

   Já estive em Cunha outras vezes, adoro a cidade mas, considerando que depois de Paraty tenho dois dias de pedal até minha casa e a previsão é de que o tempo fique ainda mais chuvoso, decidi seguir em frente e deixar para passear por Cunha na minha próxima visita.

   O céu ficou encoberto até umas 09:30, quando finalmente o sol voltou mas não durou muito. Na hora que eu estava deixando Cunha, as nuvens já estavam novamente bem carregadas.

   Pelos relatos, pensei que as subidas até Cunha seriam pesadas mas não são tão difíceis em comparação com as subidas do Caminho dos Diamantes. Depois de Cunha, aí sim as pernas são mais exigidas para chegar no ponto mais alto de toda a viagem, com 1.450 metros, no momento de cruzar a Serra do Mar. Curiosamente e, logicamente, logo em seguida vem o ponto mais baixo de toda a viagem, ao nível do mar na sempre charmosa Paraty.

   No meio da última subida, foi um alívio encontrar uma cachoeira bem ao lado da estrada e, claro, parei para um merecido banho.

   Já na descida, a neblina estava forte e o frio estava pior que na descida da Mantiqueira. Ao menos em Paraty a temperatura estava boa, apesar do tempo nublado, e pouco depois que cheguei, começou a chover.

   A Estrada Real acabou mas ainda não estou com a sensação de ter completado esse projeto. Talvez porque ainda tenho mais dois dias de pedal até minha casa… Será?

Assim como no dia anterior, neblina durante o pedal e não foi o único momento do dia.

A familiar e bela paisagem da região de Cunha.

Cachoeira do Mato Limpo, na beira da estrada.

Área rural de Cunha.

O nevoeiro mais forte da viagem foi na descida da Serra do Mar. Procure bem e me verá na foto.

Dia 24 - 27/10/2021 - De Paraty a Ubatuba

   Distância: 75,6 km – Elevação acumulada: 833 m

   Se hoje estivesse chovendo forte, eu abortaria o pedal e pegaria um ônibus, acho muito arriscado pedalar na Rio-Santos nessa condição, é pedir para ser atropelado por um motorista descuidado. Mas, como a chuva parou, saí depois de um péssimo café da manhã. Também, pelo que paguei na pousada, não estava esperando nada melhor.

   Já fiz esse caminho centenas de vezes pois, durante vários anos, fui instrutor de mergulho e Paraty é o local preferido das escolas para o check-out do curso básico. Mas, de bicicleta, foi a primeira vez e achei que seria divertido. É, talvez fosse se o clima estivesse bom, mas o acostamento estava tão sujo com a mistura de areia, terra e garrafas quebradas, tudo ainda empapado por causa da chuva dos dias anteriores, que eu pedalava no meio-fio e ia pro acostamento só quando algum veículo se aproximava. É um tanto tenso fazer isso mas a expectativa de parar nas cachoeiras de Ubatuba que ficam na beira da estrada, me animava, assim como saber que logo estaria na minha casa, apenas mais um dia e meio pedalando.

   A primeira cachoeira em que parei foi a Cachoeira da Escada que, mesmo estando a apenas 250 metros de altitude, estava envolta em névoa, o que não me impediu de tomar um rápido banho.

   A segunda parada foi na famosa Cachoeira do Prumirim mas, nela, não me animei a entrar na água e logo segui na direção de Ubatuba. Pouco depois que saí a chuva começou e, quando faltavam uns 10 km até meu Airbnb, tive o primeiro pneu furado da viagem. Foram mais de 1.100 km até aqui e não é coincidência que isso aconteceu bem na Rio-Santos, onde idiotas jogam garrafas de cerveja pela janela dos carros. Quem pedala no acostamento dessa estrada sabe que não é exagero, são dezenas de garrafas quebradas que, para os pneus dos veículos, não fazem nada, mas furam os pneus das bicicletas, fora o óbvio impacto ambiental.

   Parei no acostamento, sob forte chuva, pra trocar o pneu e, na hora de encher a câmara reserva, peguei minha bomba Park Tool novinha e vi que uma peça havia se desrosqueado e caído em algum lugar entre Diamantina e aqui. Sem essa peça, a bomba não funciona. Imagine um cara xingando muito… Então, era eu! Porra, comprei a bomba pra essa viagem pois a minha anterior era ruim de usar, mas ao menos funcionaria. Testei a bomba antes da viagem mas, pelo visto, quem fez a montagem dela na fábrica fez um serviço bem porco.

   Pensei em como fazer uma gambiarra, testei e deu certo! Pneu não ficou bem cheio mas foi o suficiente pra chegar em Ubatuba. Assim que eu estava pronto pra sair, passaram dois ciclistas, ah se tivessem passado antes para me emprestarem uma bomba. Mais ou menos 300 metros depois, encontro novamente os ciclistas e o que estavam fazendo? Trocando o pneu de uma das bicicletas.

   Ao chegar nas Suítes D&K, bem perto da praia de Itaguá, nem pensei em limpar a relação da bicicleta e consertar a câmara furada, fui direto para um merecido chuveiro quente. De tarde a chuva continuou forte e, outra vez, fiquei pensando que talvez precisasse pegar um ônibus no dia seguinte.

Cachoeira da Escada em Ubatuba.

Dia 25 - 28/10/2021 - De Ubatuba a São Sebastião

   Distância: 78,6 km – Elevação acumulada: 499 m

   Por sorte, de manhã a chuva ficou fraca e saí para o último dia de pedal. Antes de sair, escondi o cartão de memória da câmera e o pen drive onde havia feito back-up porque já ouvi vários relatos de roubos de ciclistas em um trecho de Caraguatatuba, por onde eu teria que passar. Se não tenho como evitar o roubo da bicicleta, GPS e câmera, posso ao menos não perder todas as fotos feitas esse mês.

   Por pouco tempo a chuva ficou forte de novo mas logo parou e não choveu mais até eu chegar em São Sebastião. A Rio-Santos oferece vistas muito bonitas, como para o Saco da Ribeira, mas em um dia feio como esse, eu só queria saber de pedalar forte e não ter mais pneus furados. Passei por cima de algumas garrafas quebradas que não consegui desviar mas, dessa vez, não aconteceu nada.

   Como escrevi há dois dias, quando cheguei em Paraty e terminei a Estrada Real, que era meu objetivo, não tive a sensação de ter completado a viagem, possivelmente porque ainda não estava em casa. Mas quando vi Ilhabela e São Sebastião, ainda da estrada no norte de Caraguatatuba, aí sim abri um sorriso e percebi que estava completando minha cicloviagem mais longa, mesmo faltando ainda uns 40 km.

   Se eu já estava pedalando forte desde que saí de Ubatuba, no trecho onde dizem haver assaltos a ciclistas, passei com mais rapidez ainda e, meia hora depois, estava na varanda de casa, sentindo um misto de cansaço e felicidade, olhando o mar e pensando “o que eu vou comer agora?”

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