Trekking para o Cabo Froward, Chile

     O ponto mais austral da massa continental americana, ou seja, o lugar mais ao sul na América que se pode chegar sem atravessar um trecho de mar, é o Cabo Froward, no Chile. Esse nome foi dado pelo corsário inglês Thomas Cavendish em 1587 e tem relação direta com o clima da região, já que froward significa perverso, rebelde.

Em vermelho está a trilha para o Cabo Froward

     A cidade base para a trilha é Punta Arenas, que fica em frente ao Estreito de Magalhães e tem boa infraestrutura turística, inclusive com aeroporto. Dentre os passeios que as agências oferecem há saídas de caiaque, passeios de barco para avistamento de baleias, pinguins e lobos marinhos, sendo que a colônia de pinguins mais bonita é a da ilha Magdalena (veja aqui um artigo). Apesar de receber muitos turistas, Punta Arenas mantém o ritmo de uma cidade que não vive apenas do turismo, o que me agrada bastante pois permite ir a restaurantes, cafés e bares que não são voltados para turistas e oferecem comidas e bebidas que realmente fazem parte do dia a dia local.

Quando o verão se aproxima e a temperatura sobe, os moradores correm para as praças pra aproveitar a vida ao ar livre

A praia no centro de Punta Arenas também fica movimentada com a chegada do sol

     O início do trekking fica a 70 km da cidade e não há transporte público, então se você não está de carro, precisa contratar um táxi ou uma agência de turismo. Se tem carro, pode estacioná-lo no fim da estrada pois, de acordo com todos os moradores com quem conversei, é um lugar seguro. Essa foi minha opção e não tive problemas, mas é claro que não deixei malas dentro do carro, também não preciso provocar, certo?

Nascer do sol no caminho que leva ao início da trilha

     Eu fiz essa trilha em novembro de 2019, durante uma longa viagem que teve como resultado o livro Os Mais Belos Trekkings da Patagônia, atualmente em fase de diagramação e impressão. As paisagens são muito bonitas, com diversas praias, ilhas e alguns mirantes, mas sem dúvida, o mais interessante é a vida que se encontra na costeira e no mar. Durante quatro dias eu avistei muitos pássaros, golfinhos, lobos marinhos e até mesmo um pequeno grupo de orcas. Além disso, na maré baixa há caranguejos, camarões e anêmonas nas poças de maré, o que confere um estilo de caminhada totalmente diferente das trilhas dos andes patagônicos.

     Saí bem cedo de Punta Arenas e comecei a caminhar às 07:00. O dia estava nublado e o mar, incrivelmente calmo, não havia uma onda sequer! Em uma região com tanto vento, isso é raro, como bem percebeu Cavendish séculos atrás. Logo vi que a caminhada, apesar de ter poucas subidas, não seria tão fácil, já que precisaria andar em terrenos que quase sempre faziam a velocidade ficar baixa, seja por areia fofa, pedras soltas ou escorregadias.

Apesar de parecer firme, esse cascalho afunda com cada passo, fazendo com que o desgaste seja como o de uma leve subida

Na maré baixa há mais espaço para caminhar mas é bom ter muito cuidado pra não escorregar nas algas

     Vez por outra é necessário pegar trilhas que desviam de trechos de costão ou de praias que ficam sob a água com a maré alta. A marcação dessas trilhas foi feita do modo mais improvisado que já vi, com fitas coloridas, sacos plásticos e até mesmo roupas velhas como meias, cuecas e gorros pendurados nos galhos. Um tanto quanto tosco, mas não posso negar que funciona.

     As únicas pessoas que encontrei no primeiro dia foram 3 chilenos que estavam voltando para a cidade pois não encontraram o caminho para o farol San Isidro. Achei estranho porque, supostamente, seria só seguir pela costeira e talvez pegar uma trilha lateral por um curto trecho. Perguntei se queriam me acompanhar mas não quiseram, então segui em frente e, em meia hora, cheguei no farol, sem entender como não encontraram um caminho tão fácil, já que o pequeno desvio estava bem visível.

Farol San Isidro, bastante visitado por quem quer fazer trilha em um dia apenas

Bahía del Cañon

A ilha Tortuga pode ser acessada sem molhar os pés quando a maré está baixa

     Em todo o percurso há vários rios que precisam ser atravessados, mas apenas dois deles não têm árvores caídas que permitem a passagem se equilibrando nelas. Para cruzar esses rios é importante esperar a maré baixa, então calcule o tempo de caminhada para que não precise ficar esperando muito tempo ou, pior ainda, chegue com a maré subindo, o que vai te deixar preso por muitas horas. Eu sei que você está pensando que aguenta entrar na água fria, mas além de ser mais fria do que imagina, a vazão do rio pode estar forte, dependendo do degelo e das chuvas. Não são poucos os relatos de pessoas que tiveram problemas ao tentar a travessia com nível alto, molhando completamente os equipamentos ou tendo a mochila arrastada para o mar. Eu até tentei cruzar o rio San Nicolas, que é o mais fundo, com maré média, mas voltei quando vi que teria água até o peito, então esperei por duas horas até a maré mais baixa. Para facilitar, procure atravessar o rio em seu ponto mais largo, pois nos pontos em que ele é mais estreito, precisa ser mais fundo para dar vazão à água sem represá-la. Normalmente, a foz é o ponto mais raso, já que o mar está constantemente jogando de volta a areia que o rio carrega, criando um mini delta.

Atravessando o rio San Nicolas com a maré baixa

Sabendo que a maré não subiria mais, aproveitei pra acampar bem perto da água

Nascer do sol visto da frente da barraca

     O segundo dia estava com o clima igual ao do primeiro, quase sempre nublado e, de vez em quando, com um pouco de sol ou garoa. A diferença foi que nesse dia o avistamento de fauna foi bem mais intenso, com diversos grupos de golfinhos, alguns lobos marinhos e, até mesmo, 4 orcas, que reconheci pelo tamanho das barbatanas dorsais, pois estavam muito longe da costa. Mesmo distantes, foi um encontro empolgante, já que eu nunca imaginei ver orcas durante um trekking.

Vi dezenas de golfinhos no segundo e terceiro dias, pena que eles são tímidos e não deram saltos para a câmera, isso foi o máximo que um deles se expôs

Vi menos lobos marinhos que golfinhos, mas eles se exibiram um pouco mais

     Quando cheguei na área de acampamento perto do Cabo Froward, resolvi subir o morro em que está a Cruz de los Mares levando todo o equipamento, assim, se houvesse um local para montar a barraca, eu poderia acampar no cume e fazer fotos noturnas. Para minha felicidade, não só existe uma pequena área em que cabe uma barraca, como também há um lago para pegar água.

A Cruz de los Mares tem 24 metros e foi construída no cume de um morro com 400 metros de altitude, oferecendo uma vista impressionante para as ilhas Clarence e Dawson, do outro lado do Estreito de Magalhães. A cruz foi construída pela primeira vez em 1913 mas, por causa das severas condições climáticas, precisou ser refeita várias vezes, sendo que a atual é toda de metal vazado e foi instalada em 1987, com uma homenagem à visita do Papa João Paulo II ao Chile naquele mesmo ano. 

Para ter melhor noção de tamanho, eu estou abaixo da cruz, com uma jaqueta vermelha

     Acordei de madrugada mas o clima do “cabo perverso” não me ajudou e nem saí do saco de dormir. Como o barulho da chuva me mostrou que não seria dessa vez que eu faria fotos noturnas da Cruz, voltei a dormir, o que não é um programa ruim depois de dois dias longos de caminhada.

     O terceiro dia começou com tempo feio mas, ao menos, não chovia como durante a noite. Coloquei tudo na mochila antes que a chuva voltasse e comecei a descer o morro, que nos trechos mais íngremes têm escadas de metal para facilitar a caminhada. A primeira escada exigia um pouco de atenção pois os degraus são bem pequenos, já a segunda é como a escada de uma casa e pisei sem muita atenção. Que erro… Escorreguei assim que dei o primeiro passo e fui quicando nos degraus até chegar no chão, uns 4 metros abaixo. Ainda sem entender o que havia acontecido, me levantei, chequei se os ossos estavam todos no lugar e, claro, xinguei a maldita escada! Olhando de baixo pude ver que os degraus não estão paralelos ao chão, a base dela deve ter cedido com o tempo e os degraus ficaram inclinados para baixo, virando um escorregador se ela estiver molhada e o caminhante, distraído.

Há cordas em alguns trechos para ajudar os trilheiros

     Chegando à praia havia um pouco de vento e o barulho das ondas impedia que eu ouvisse a respiração dos mamíferos marinhos, que é o que me alertava. Sem o aviso sonoro, nesse dia encontrei só alguns golfinhos, além dos sempre presentes pássaros e, na maré baixa, anêmonas e algas.

     Novamente andei mais rápido do que imaginei e cheguei cedo para atravessar o rio Nodales, que é mais raso que o San Nicolas. Quando a maré estava quase baixa, passei com água pouco acima dos joelhos. Bom, ao menos dos joelhos de quem tem 1,84 m, na dúvida, mande o mais alto do seu grupo para testar.

Enquanto esperava a maré baixar, fiquei fotografando os albatrozes que estavam descansando na beira do mar

A cada movimento mais brusco eles fugiam mas voltavam em menos de um minuto

Um belo entardecer no terceiro dia

     Me vesti e fui rapidamente até o rio San Nicolas para aproveitar que a maré ainda estaria baixa, apesar de já estar começando a subir. Segunda travessia feita, acampei logo depois, tranquilo por saber que no dia seguinte não teria que entrar na água gelada e nem me preocupar com horários de maré.

Pôr do sol no acampamento do terceiro dia

     Assim como o primeiro dia, o quarto e último não teve avistamento de fauna que chamasse atenção, então andei sem pausas até o início da trilha que leva para o Monte Tarn, mas como o tempo estava muito feio e o visual ao redor não parecia interessante como o que tive na Cruz de los Mares, resolvi encurtar em um dia o trekking e ir direto para o carro.

     Acho importante dizer que essa caminhada é melhor feita em 5 dias, percorrer os 80 km em 4 dias é um pouco corrido pois o esforço para andar na praia ou sobre pedras soltas é diferente do esforço feito em trilhas de terra firme. Se você for sozinho, leve em consideração que, se tiver um problema, é bem provável que não encontre outras pessoas para ajudá-lo. Eu só encontrei pessoas entre o início da trilha e o farol San Isidro, ficando isolado a partir da tarde do primeiro dia até a tarde do quarto dia.

     Sobre a beleza da trilha, acredito que ela não está entre as melhores da Patagônia, tanto que não a selecionei para o livro. Porém, se você vai para Punta Arenas, vale a pena separar 5 dias para fazê-la pois sei que terá uma boa experiência, só não acho deva sair do Brasil apenas com a intenção de fazer esse trekking, nesse caso há opções melhores.