Os mais belos trekkings da Patagônia

O projeto Os Mais Belos Trekkings da Patagônia vai documentar com fotos, vídeos em time-lapse e imagens em 360 graus os trekkings mais bonitos dos Andes Patagônicos, não só os já mundialmente famosos como também as trilhas menos conhecidas e mais selvagens. 

Vale dizer que quando escrevo sobre algum trekking, estou sempre me referindo à uma caminhada que exige pernoite durante o percurso. Também farei trilhas bate-volta mas essas serão publicadas apenas na internet, não fazendo parte do livro.

Esse projeto começou a tomar forma depois de uma viagem para Torres del Paine, no Chile. Completamente fascinado pela região, logo passei a pesquisar quais são as trilhas mais bonitas e percebi que não há um consenso entre as revistas e sites especializados, exceto por Torres del Paine e El Chaltén, os pontos mais famosos de Chile e Argentina. Essa discordância acontece não apenas por diferenças de gosto mas, principalmente, porque pouquíssimas pessoas conhecem a fundo toda a Patagônia. Como a lista só crescia, decidi percorrer todos os trekkings tidos como os mais bonitos por diferentes publicações para poder escolher de acordo com minha própria opinião.

Algumas trilhas já estão definidas e outras serão pesquisadas durante a viagem, avaliando o entorno e conversando com os montanhistas locais.

Até o momento, os trekkings já definidos são:

  • Circuito Macizo Paine, mais conhecido como O, em Torres del Paine (Chile) – Finalizado;
  • Cabo Froward (Chile) – Finalizado;
  • Circuito Dientes de Navarino (Chile) – Finalizado;
  • Sierra Valdivieso (Ushuaia, Argentina) – Finalizado;
  • Dois circuitos no Parque Nacional Los Glaciares (El Chaltén, Argentina) – Finalizado;
  • Circuito em El Bolsón (Argentina) – Finalizado;
  • Travessia do Parque Nacional Cerro Castillo (Chile) – Finalizado;
  • Duas travessias no Parque Nacional Nahuel Huapi (Bariloche, Argentina) – Finalizado;
  • Travessia do Parque Nacional Villarrica (Chile) – Finalizado.

Além desses onze circuitos e travessias citadas acima, tenho uma grande lista de trekkings e trilhas bate-volta para pesquisar durante a viagem e avaliar quais serão percorridos, além de muitos atrativos ao longo da Ruta 40 e Carretera Austral, as estradas mais bonitas do Chile e da Argentina.

A viagem terá início no dia 01 de outubro de 2019 e terminará provavelmente em março de 2020. Apesar do objetivo principal da viagem ser a documentação dos trekkings, os deslocamentos serão feitos de carro para poder levar equipamentos fotográficos diversos, assim como equipamentos de montanhismo e trekking voltados para diferentes climas, além de um bom (e grande) notebook para edição das imagens. E também porque eu gosto da liberdade de ir para onde quiser, a hora que quiser, parando onde me der vontade, o que eu não poderia fazer se fosse de avião e ônibus. O carro usado será um Jimny, que é um pequeno 4×4 da Suzuki, assim poderei ir para caminhos fora-da-estrada, procurando paisagens ainda mais bonitas que as que terei na Ruta 40 e  Carretera Austral, as estradas mais bonitas da Argentina e Chile.

Ao final dessa longa viagem será publicado um livro de fotos com os trekkings mais bonitos, incluindo textos contando a história desse projeto e as características de cada trekking. Também será criado um Tour Virtual com as imagens em 360 graus e dicas para quem quiser percorrer as trilhas, servindo como um portal de auxílio às pessoas que pretendam viajar para a Patagônia.

 À medida que as trilhas forem percorridas, marcarei no mapa e publicarei um artigo abaixo dele.

Bariloche

Los Alerces

El Chaltén

Glaciar Perito Moreno

Puerto Natales

Torres del Paine

Cabo Froward

Parque Pinguino Rey

Sierra Valdivieso

Dientes de Navarino

Parque Nacional Monte León

De volta ao Brasil

Já estou de volta ao Brasil, felizmente pude terminar as fotos antes da pandemia. Os textos estão atrasados pois estou escrevendo o livro, editando fotos, etc, mas em algum momento voltarei a publicar o que aconteceu nos três últimos meses, que foram inesquecíveis!

17/12/2019 a 04/01/2020 - El Chaltén (Argentina) pela terceira vez

Aviso: tenho muita vontade de mostrar as melhores fotos de cada trilha, mas tenho que deixá-las inéditas para o livro, então nesses artigos eu postarei poucas fotos e não as que eu pretendo usar no livro, me desculpem.

Essa foi minha terceira ida pra El Chaltén na mesma viagem. A primeira parada, no fim de outubro, foi boa, pois fiz o circuito do Fitz Roy em 3 lindos dias de sol e fotografei os lagos ainda congelados por conta do longo inverno. Isso depois de ter que esperar apenas dois dias pra que as nuvens liberassem a vista pras montanhas. A segunda parada foi frustrada por um vidro do carro quebrado durante a noite, não posso dizer se pelo vento ou vandalismo, só sei que precisei deixar a Argentina e ir pro Chile pra trocar o vidro, em vez de fazer a Vuelta al Huemul. Agora, dois meses depois, os lagos já estavam descongelados e eu poderia finalmente refazer o Circuito Fitz Roy e a Vuelta al Huemul, só precisava combinar com o clima, que estava ainda mais instável que o normal.

Logo ao chegar na cidade, minha primeira parada foi no Centro de Informações da APN, o órgão que controla os Parque Nacionais Argentinos, e a conversa com o guarda-parque foi assim:

-Queria saber como está a previsão, já que vou fazer os dois circuitos do Parque.

-Quanto tempo você tem livre?

-O quanto for preciso, pela sua pergunta a previsão está ruim, certo?

-Por pelo menos 10 dias as montanhas estarão encobertas pelas nuvens, com uma ou outra abertura, mas insuficiente pra fazer a Vuelta al Huemul. Depois eu não sei porque nossa previsão é de 10 dias.

Já imaginou a minha frustração ao ouvir isso? Ainda bem que novamente eu tinha hospedagem grátis, pois era quase Ano Novo e não sairia barato ficar parado por 10 dias esperando as nuvens irem embora. Gastar dinheiro mas estar produzindo é bem diferente de pagar e não poder trabalhar, o que me deixa agoniado e ansioso.

Depois de 3 dias na Hostería Fitz Roy apenas editando fotos, a previsão disse que haveria um dia com céu limpo. Apenas um dia, então me planejei pra sair às 3 da manhã, pegar o nascer do sol no caminho pro Fitz Roy, subir até a Laguna de los Tres, descer até a Laguna Sucia, ir no mirante do Glaciar Piedras Blancas e também na Laguna Capri. Ufa… Plano ambicioso, com 34 km de caminhada, mas seria o modo de fazer as fotos que me faltavam desse circuito, já que da Laguna e Cerro Torre eu tinha todas as fotos que queria.

Pra resumir um longo dia em uma pequena frase: deu tudo certo! Cheguei no começo da noite na pousada e pude passar os dias seguintes dando descanso aos joelhos, que ficaram bem doloridos. O que causou as fortes dores eu não acho que foi a distância nem a elevação, já que por várias vezes nessa viagem eu andei mais que 30 km em um dia e, pior, carregando a mochila cargueira com 20 kg, sendo que nesse dia eu levava pouco peso. O meu estilo de andar é lento e fazendo paradas rápidas pra fotografar, nunca paro pra descansar nem pra comer. Deixo à mão as comidas que posso comer enquanto ando, assim não perco tempo e os joelhos não esfriam, mas nesse dia eu tive que andar bem rápido e ficar parado por períodos longos, esperando a luz que eu queria, então imagino que esse tenha sido o motivo das dores.

Laguna de los Tres finalmente descongelada

Laguna Sucia, que de suja não tem nada

Nove dias depois, outra previsão de bom tempo mas para apenas um dia. De qualquer forma eu já estava mofando e resolvi que tentaria fazer a Vuelta al Huemul. Esse é um circuito de 4 dias que deixa o trilheiro de frente para o Glaciar Viedma, mas que tem trechos no segundo e terceiro dias que não devem ser feitos com tempo ruim, tanto pelo perigo como porque não haveria vista pro Campo de Gelo Continental, então qual o motivo de estar lá?

O primeiro dia de trilha foi lindo, com bastante sol e algumas nuvens escondendo o cume do Cerro Huemul, mas nada que meia hora de espera não resolvesse até ter uma boa visão, fotografá-lo e seguir em frente até o acampamento da Laguna Toro. Depois de uma tarde agradável lendo sob o sol, fui dormir cedo, torcendo pra que a previsão estivesse errada e o dia seguinte não amanhecesse com nuvens baixas. Sabe aquela previsão do tempo que vive errando quando você planeja passar o fim de semana na praia? Pois bem, aqui na Patagônia ela está quase sempre certa: o dia amanheceu sem vista alguma pras montanhas e resolvi voltar pra cidade. Valeu a tentativa, ao menos passou o tédio de ficar 9 dias sem trilhar.

Aproveitando o sol e uma das grandes invenções da humanidade, o livro digital

Outros seis dias editando fotos em El Chaltén até que aparecesse uma previsão boa. Ainda bem que nesse tempo conheci alguns paranaenses e tive alguém pra conversar em português, e no dia 29 de dezembro fui novamente pro Huemul.

Não saí cedo pois já tinha as fotos que precisava e o clima não prometia ajudar no primeiro dia, mas foi melhor do que o previsto. Outra vez dormi cedo pra poder madrugar, e qual foi minha alegria ao ver o nascer do sol quase sem nuvens, enquanto fotografava uma raposa sonolenta, que deve ter passado a noite procurando por comida deixada fora de alguma barraca.

A raposa não ficou muito feliz por ter sido acordada

Logo no início da trilha é preciso atravessar um rio, o que pode ser feito em um trecho em que ele é pouco profundo, ou em um pequeno cânion, onde há uma tirolesa. Não me incomodo de colocar os pés na água fria, mas já que eu estava carregando cadeirinha e mosquetões, resolvi usá-los. Quando atravessei, conheci o Thibaud, um francês que havia atravessado há pouco e logo em seguida veio um casal de ingleses, que acabei conhecendo também, mas saí andando sozinho, como prefiro.

Barney na primeira tirolesa da Vuelta al Huemul

A trilha segue por uma encosta de pedras soltas, desde pequenas pedras a grandes blocos de rocha que, ao pisarmos, deslizam e levam junto as pedras que estão acima do trilheiro. Tem gente que prefere andar na beira da geleira que está abaixo dessa encosta, mas eu quis ir um pouco mais pelo alto pra poder fotografar melhor o Glaciar Rio Tunel. Trecho chato de andar e com boas chances de ter uma perna quebrada se não tomar cuidado com os deslizamentos causados por nossos próprios passos, mas ao chegar no alto do Paso del Viento, a vista impactante do Campo de Gelo Continental Sul foi de arrepiar! Meus amigos chilenos que me desculpem, porém essa vista foi ainda mais impressionante que a do Paso John Gardner, em Torres del Paine.

Glaciar Viedma, parte do Campo de Gelo Continental Sul

Fiquei um bom tempo por ali, conversando com o Thibaud e o José, um argentino que estava fazendo um bate-volta até o Paso e, claro fotografando e admirando a paisagem, que infelizmente não transmite o mesmo impacto nas fotos porque não dá pra passar a dimensão da geleira. Momento de contemplação terminado, saí junto com o Thibaud rumo à Laguna del Refugio. Infelizmente, apesar da trilha seguir paralela à geleira, não há vista pois a trilha anda por um vale. Como fomos os primeiros a chegar no acampamento, pudemos escolher os melhores lugares pras barracas e nadar um pouco em sua água gelada pra tirar a sujeira dos dois primeiros dias de caminhada.

Não vou dizer que é fácil entrar em um lago de degelo, mas sem dúvida é revigorante

O terceiro dia de caminhada segue paralelo à geleira, mas à medida que se ganha altura para atravessar o Paso Huemul, passa-se a ter vista pro Campo de Gelo. Não sei se porque hoje o dia estava ainda mais ensolarado, mas achei a vista mais impressionante até mesmo que a do Paso del Viento. Quando cheguei no alto do Paso, fui com o francês até um mirante, por uma caminhada de apenas 40 minutos (só ida) que é imperdível, já que de lá se pode ver o fim do glaciar e o início do lago Viedma. Como as pessoas costumam chegar cansadas e querem descer logo até a praia, mais ninguém foi até o mirante, mas recomendo muito que faça isso, pois se essa não é a vista mais bonita dos quatro dias, está perto de ser.

Então veio a tão famosa descida do Paso Huemul, que todo mundo diz ser muito íngreme e perigosa, que é necessário se segurar nas árvores e pedras para não cair, blá blá blá. Não sei se foi porque já havia ouvido relatos terríveis desse trecho, mas pra mim, o que foi pior foram as incontáveis mutucas que ficavam me rodeando. Como eu tinha que usar as mãos pra me apoiar nos bastões, de tempos em tempos eu parava pra que pousassem e eu pudesse matá-las. Só durante a descida, 17 mutucas descobriram se há vida além da morte, e isso passou a ser uma constante nas trilhas da Patagônia durante o verão, então venha psicologicamente preparado porque não tem repelente que as espante.

O acampamento no Lago Viedma é outro lugar que ninguém esquece, não tanto pela praia em si, que é de pedras, mas pelos inúmeros icebergs, de todos os tamanhos, que chegam até a praia. Por ser um dia de sol e sem vento, entrar na água foi tranquilo até mesmo pra um brasileiro que não gosta de água fria, afinal, quando terei outra chance de nadar rodeado de icebergs? Já a Heather, namorada do Barney, o casal que eu conheci na tirolesa, ficou nadando como se estivesse em uma piscina aquecida por pelo menos 15 ou 20 minutos, impressionante! Sem dúvida foi um bom jeito de terminar o último dia de 2019, já que ninguém ficou acordado pra comemorar a virada do ano, estava todo mundo dormindo pesado.

Os braços tensos mostram que novamente não foi fácil entrar na água, mas logo o corpo se acostumou. Foto feita pelo Thibaud.

Essa foto é claro que foi feita pra brincar com os amigos que ficam postando fotos pegando sol nas praias brasileiras, mas acreditem, não é tão frio como parece. Foto feita pelo Thibaud.

O primeiro dia de 2020 começou cedo, já que eu queria estar, antes do nascer do sol, em uma península com vista pro Glaciar Viedma, pois da praia não se vê a geleira. Outra vez o sol estava lindo, sem nuvens pra atrapalhar seu nascer, então fiz minhas fotos e logo comecei o longo e entediante caminho de volta pra El Chaltén. Depois de tantas paisagens impressionantes, andar 30 km com poucas vistas bonitas, já com as pernas um pouco cansadas, foi realmente desgastante. Nesse dia há mais uma tirolesa, sobre um rio que eu tentei atravessar a pé mas desisti no meio, pois é mais fundo e caudaloso do que aparenta, e eu fiquei com medo de molhar os equipamentos de foto.

Assim que cheguei em El Chaltén, um dos paranaenses falou que eu estava com cara de muito cansado, já o outro foi mais direto e disse que eu estava acabado. Amigos, né… E no dia seguinte, o administrador do camping falou “acho que te vi ontem na estrada, quase se arrastando pelo acostamento, era você?”. É, acho que eu comecei o ano meio cansado, mas felicíssimo por ter feito as fotos das duas travessias.

No dia seguinte fui comemorar a virada do ano e o sucesso da trilha comendo um bom cordero patagonico junto com o Thibaud, Heather e Barney. Eu ainda queria fazer uma trilha bate-volta, que não é parte do projeto mas que dizem ser muito bonita, mas como não tinha previsão de melhora, mesmo depois de 3 dias de espera, resolvi seguir em frente, rumo ao Parque Nacional Patagônia, no Chile.

15 e 16/12/2019 - Parque Nacional Monte León (Argentina)

Flores no norte da Tierra del Fuego

Trabalho terminado na Tierra del Fuego, peguei a estrada rumo a El Chaltén. No primeiro dia fui até Rio Gallegos, na Argentina, e dei uma volta pelo seu centro e avenida costeira em busca de algo interessante mas, como não encontrei, fui dormir cedo.

Balsa que liga a Tierra del Fuego ao continente.

No segundo dia de estrada fui até o Parque Nacional Monte León, que se vende como um local para observação de pinguins, lobos marinhos e aves. A paisagem é bonita, com o mar bravo se lançando contra as falésias e praias, mas os animais ficam bastante distantes dos mirantes, então a observação se torna um pouco monótona.

Mirante no Monte León: os lobos marinhos estão em terra, mais ou menos no centro da foto

Com zoom fica mais fácil de mostrá-los, mas ainda assim estão muito distantes

Ilha Monte León, local de onde foram retiradas toneladas de guano na época anterior à invenção dos fertilizantes artificiais. Esses milhares de pontinhos espalhados pela ilha são pássaros.

Outra vez que o zoom da câmera teve bastante utilidade, assim dá pra ver a quantidade de pássaros, principalmente atobás.

É proibido descer nessa praia para não incomodar os pinguins e lobos marinhos.

Nessa praia é permitido andar, desde que a maré esteja baixa.

Acabei ficando pouco no parque, o que se tornou uma boa notícia, pois logo que entrei em uma área com sinal de celular, recebi a mensagem de que teria hospedagem gratuita novamente nas Hosterías Fitz Roy, Vertical Lodge e El Paraiso, em El Chaltén. E se eu quisesse, a partir daquela noite mesmo, então resolvi seguir direto pra El Chaltén e dar sequência às fotos do meu projeto.

08/12/2019 a 14/12/2019 - Sierra Valdivieso e Ushuaia pela segunda vez

Depois de algumas semanas, imaginei que as lagunas da Sierra Valdivieso já estivessem descongeladas e fui novamente fazer esse circuito, dessa vez percorrendo o roteiro mais comum, apenas acrescentando um bate-volta para algumas cachoeiras nas Lagunas Mariposa.

Uma das cachoeiras que estão fora do circuito tradicional. Elas são bonitas mas acho que só vale a pena visitá-las se houver tempo livre, já que não são imperdíveis.

Ao voltar da Ilha Navarino, fiquei 3 dias em Ushuaia esperando uma pequena janela de bom tempo, o que deveria acontecer no dia 12/12/2019. Como me faltavam fotos apenas do Paso Mariposa e Laguna Azul, saí um dia antes de quando a previsão dizia haver sol e comecei pelo sentido contrário, assim poderia checar as cachoeiras ainda no primeiro dia. Eu já conhecia todo esse trecho e boa parte dele é feito andando no turbal ou em trilhas mal marcadas pela mata, com trechos de vara-mato, então mais que um treino para as pernas, foi um treino para a paciência.

Lagunas Mariposa e Lago Fagnano ao fundo.

No fim do dia, quando cheguei ao lago com a cachoeira, procurei um lugar para a barraca mas o terreno era muito úmido, então resolvi voltar alguns quilômetros em busca de um acampamento melhor, o que consegui já bem próximo da subida para o Paso Mariposa.

Finalmente um bom lugar pra barraca, agora é “só” esperar que o tempo melhore.

O pôr do sol não foi bonito e fui dormir logo depois, acordando à uma da madrugada pra tentar fotografar as estrelas. Ao contrário do que dizia a previsão, nessa hora começou a chover e não parou até às 10:00, quando decidi que subiria o Paso mesmo com tempo nublado, na esperança de que as nuvens sairiam do caminho até que eu chegasse no ponto mais alto.

Felizmente minha aposta deu certo e aos poucos o céu começou a ficar limpo, então pude fotografar a partir do Paso Marisposa depois de apenas meia hora de espera, para que houvesse visibilidade suficiente até as lagoas. Em seguida desci apressado até a Laguna Azul, o ponto mais famoso desse circuito, na esperança de conseguir as fotos que me faltavam e, dessa vez, eu estava no lugar certo no momento certo. Fotos feitas, segui para um ponto no início da subida para o Paso Beban, indo dormir feliz por ter o material necessário sobre esse circuito.

As fotos mais bonitas estão guardadas, essa eu postei apenas pra que vejam que cor linda cor verde tem a Laguna Azul.

Como já havia feito as fotos necessárias e o terceiro dia amanheceu novamente bem feio, segui direto até a estrada. Na parte da manhã tive vistas interessantes, mas depois a caminhada se tornou um tanto quanto monótona, passando por turbais, travessias de rios e caminhos usados por quadriciclos.

Lindo dia para fotografar, não é? Enfim, quem se aventura pela Terra do Fogo precisa ter consciência que dias de sol não são o padrão por aqui.

Ao chegar na estrada, logo depois que comecei a andar na direção da cidade em busca de sinal de celular pra conseguir um transporte, o dedo funcionou melhor que a telefonia e consegui carona até Ushuaia, precisando caminhar apenas até as Cabañas del Martial, local em que deixei meu carro e equipamentos.

Estrago feito pelos simpáticos mas destrutivos castores.

Sei que postei poucas fotos nesse artigo e elas não são muito interessantes, mas como fotografei pouco nesses 3 dias, as boas imagens eu preciso deixar guardadas para o livro.

Enfim, hora de deixar a Terra do Fogo e voltar pra El Chaltén pra completar as fotos do circuito do Fitz Roy e pra fazer a Vuelta al Huemul, pela qual tenho grandes expectativas.

30/11/2019 a 07/12/2019 - Dientes de Navarino e Puerto Williams (Chile)

Praça principal de Puerto Williams

Dientes de Navarino, no Chile, é famoso por ser o circuito de trekking mais austral do mundo, mas esse é o menor motivo pra visitar a ilha Navarino. As belas montanhas e lagos ao longo dessa trilha é que valem a cara viagem até Puerto Williams, cidade base para uma caminhada que normalmente é feita em 4 ou 5 dias mas que, para um trilheiro bem treinado, pode ser feita sem correria em 3 dias, já que são só 54 km.

Não sei se é ele o prefeito de Puerto Williams mas tem pose pra isso

Apesar de terem me falado que os lagos ainda estavam congelados, resolvi fazer a trilha mesmo assim e, depois de umas semanas, faria de novo para fotografar com os lagos descongelados. O primeiro trecho, entre a cidade e a Laguna del Salto, foi tranquilo pois tem uma longa subida no início, mas que não é íngreme. Já perto da Laguna haviam alguns trechos com grande inclinação lateral, em que um escorregão na neve ou na terra fofa poderia causar um acidente, e fiquei pensando como seria o dia seguinte, já que o primeiro dia é considerado o mais tranquilo.

Puerto Williams vista da subida para o Cerro Bandera

Dia bonito, com sol entre nuvens, e ao chegar na Laguna del Salto confirmei o que haviam me dito: ela estava coberta por uma fina camada de gelo. Não nego que eu tinha esperança que os dias de sol já teriam derretido tudo mas ao menos não me decepcionei pois era isso que eu esperava.

Laguna del Salto

 

A tímida cachoeira que dá nome ao lago

O segundo dia começou lindo, com muito sol e logo comecei a andar, atravessando o Paso Australia com um céu azul que há tempos eu não via na Patagônia. Chegando do outro lado da montanha encontrei a Laguna del Paso parcialmente descongelada, o que foi uma ótima surpresa.

Laguna del Paso começando a descongelar

No início da tarde o tempo fechou e não consegui fotografar da Laguna del Paso em diante, então fui direto pra Laguna Escondida e montei a barraca em uma linda península, bem exposta aos ventos mas resolvi arriscar. Pra minha alegria, a Laguna estava quase totalmente descongelada.

Achei que curioso que dizem que o segundo dia é que faz as pessoas desistirem, achei esse trecho bem mais tranquilo que o do dia anterior.

Barraca na Laguna Escondida

Pouco depois chegaram 3 americanos, conversamos um pouco sobre política, meio ambiente e fui dormir, mas no meio da noite tive que mudar a barraca pois o vento ficou bem forte e, se piorasse mais um pouco, ela seria arrancada ou teria as varetas quebradas. Assim como na Sierra Valdivieso, perdi a aposta pra Patagônia!

Na manhã seguinte conversei mais um pouco com os americanos, que estavam em um casal, Mary e Manesh, e um homem sozinho, o Mustafá, que muito gentilmente me deu dois hand warmers (uma bolsinha que é colocada dentro da luva pra esquentar as mãos). A princípio eu recusei, já que não precisava, mas ele insistiu e disse que tinha um monte, então aceitei. Como o dia não estava bom pra fotografar, resolvi voltar um pouco e pegar a trilha pro lago Windhond, que não me atraía muito mas, já que não posso fazer meu trabalho, seria legal fazer uma trilha só por diversão, sem ter que pensar nas fotos.

Quando cheguei no cume do Cerro Bettinelli e começaria a descida até o lago, não senti vontade alguma de continuar. O tempo estava feio, o lago não parecia atrativo e, pior, o caminho de volta pra Puerto Williams seria por um vale sem belas vistas e com muitos charcos. Mudei de ideia mais uma vez e comecei o caminho de volta pra Laguna Escondida, aproveitando a liberdade de estar sozinho e poder mudar de planos quantas vezes eu quiser. Pra quem está fazendo o circuito Dientes de Navarino, recomendo fazer um bate-volta até o cume do Cerro Bettinelli, tendo assim uma bela visão tanto do mar como das montanhas.

Voltar pra Laguna Escondida foi uma ótima decisão pois o tempo abriu e pude fazer boas fotos das Lagunas del Picacho, Laguna de los Dientes e, principalmente, da Laguna Escondida, que estava lindíssima e foi, sem dúvida, meu ponto preferido desse circuito. Abaixo estão algumas fotos, mas as que mais gostei estão reservadas apenas para o livro.

Castor na Laguna del Picacho

Laguna de los Dientes

Laguna Escondida

A segunda noite na Laguna Escondida foi sob chuva fraca e ventos, mas ao acordar vi que não era chuva, era neve, muita neve! Enfim, nem pensar em caminhar hoje, e como eu tinha comida pra dois dias a mais, não tive nem mesmo que racionar as refeições. Só fiquei pensando nos 3 americanos que, naquele dia, cruzariam o Paso Virginia, última montanha do circuito e que pode ser difícil de atravessar quando há uma tempestade de neve, deixando tudo completamente branco e não sendo possível diferenciar o que é chão do que é ar. Dia todo na barraca lendo no Kindle e vendo filme baixado da Netflix, como é fácil matar o tempo hoje em dia, alguns anos atrás eu tinha que passar o dia todo olhando o teto da barraca ou carregar um pesados livros em papel.

No sul da Patagônia a neve pode vir em qualquer época, mesmo em janeiro ou fevereiro

Dia seguinte amanheceu nublado e apenas garoava de vez em quando, então resolvi seguir em frente. Como saí de madrugada, às 09:00 eu já estava no próximo ponto de camping e achei melhor ir pro seguinte, que alcancei ao meio-dia. Então me deu vontade de fazer os 3 trechos no mesmo dia e segui direto pra Puerto Williams, caminhada um pouco longa mas nada que assuste.

Pausa pra um lanche protegido da chuva

Ao chegar no cume do Paso Virginia, comecei a andar pela neve e percebi que ela não estava firme sobre as pedras, abaixo haviam grandes buracos e a montanha baixava abruptamente, então voltei com cuidado pra parte mais alta pra não derrubar toda aquela neve e ser levado junto. Pouco antes de chegar nas pedras encontrei uma barraca, fogareiro, uma blusa de lã e alguns outros equipamentos. “Como essas coisas vieram parar aqui?”, pensei. A barraca estava novinha e parecia ser do casal de americanos, assim como a garrafa rosa e a blusa deveriam ser da Mary. Procurei se havia nome gravado em algum equipamento mas não encontrei, então recolhi tudo e levei para o trecho sem neve, colocando pedras em cima pra que não voassem. Pensei em levar pra cidade mas, caso tivesse ocorrido algum acidente, seria melhor deixar as coisas ali.

Equipamentos encontrados no cume do Paso Virginia

Comecei a descida e pouco depois vi um grande buraco na neve com uma bolsa estanque do lado de fora, então imaginei que o buraco poderia ter sido feito pela queda de alguma pessoa e que ela colocou a bolsa estanque pra sinalizar sua localização. Por outro lado, eram 3 os americanos, se alguém se acidentou haviam outras pessoas pra ajudar ou chamar socorro.

Buraco e saco estanque

Segui a caminhada mas não conseguia parar de pensar que algo deu errado com eles, então quando cheguei na Laguna los Guanacos, em vez de seguir pela trilha certa, peguei o antigo caminho, que está mal marcado mas que é mais curto. Por sorte, ao chegar na estrada o primeiro carro que passou já me deu carona, evitando uma caminhada de 7 km pelo asfalto. Assim que entrei no carro e contei que havia feito o circuito, me falaram que um americano estava desaparecido e, involuntariamente, ensinei pra eles alguns palavrões em português. Pedi pra me deixarem nos Carabineros, mostrei pros policiais as fotos dos equipamentos e a localização e me ofereci pra ir no dia seguinte mostrar o ponto exato, já que estava escurecendo e eu não tinha condição de subir o Paso Virginia.

Laguna los Guanacos e Canal de Beagle vistos da descida do Paso Virginia

Paso Virginia visto da Laguna los Guanacos

A Mary havia ido embora da ilha mas o Manesh, seu namorado de origem indiana, estava hospedado nos Carabineros e me contou que, no dia da tempestade de neve, o Mustafá estava andando pela neve e caiu em um grande buraco. Como não era possível subir, ele disse que continuaria na direção que estavam andando anteriormente, enquanto que o casal, com medo de também cair, se enrolou na barraca e chamou ajuda pelo rastreador via satélite Garmin inReach. A equipe da Garmin nos EUA entrou em contato com os Carabineros e, em algumas horas, os socorristas chegaram ao cume do Paso Virginia, levando o casal pra baixo. Como não conseguiram ver nem ouvir nada do Mustafá, dormiram na cidade pra continuarem a busca no dia seguinte.

Eu não entendi muito bem como o Mustafá conseguiu andar em um buraco e imaginei que ele havia caído em uma greta, já que, naquele trecho, eu também havia afundado uma perna até a virilha e, ao me levantar, vi que havia um buraco com mais de 2 metros de profundidade e alguns metros de largura. Na minha cabeça o Mustafá caiu em um lugar igual e, como não pôde subir, continuou andando até cair no trecho seguinte, abrindo o buraco na neve que eu fotografei na descida do Paso. A única certeza que eu tinha é que eu estava com os hand warmers e ele estava caído na neve, quantas vezes será que ele se arrependeu de ter me dado isso?

Deixei meu contato com os Carabineros e com o Manesh e fui, finalmente, tomar banho, comer e descansar pra poder subir no dia seguinte com a equipe de resgate. Só que umas horas depois um policial me escreveu dizendo que o desaparecido havia chegado por conta própria na cidade! Feliz por não ter que voltar pra trilha no dia seguinte e aliviado por ele estar bem, dormi tranquilo e encontrei os americanos no dia seguinte enquanto esperávamos o barco que liga a ilha Navarino à Ushuaia.

Tudo fez mais sentido quando o Mustafá disse que, na verdade, não caiu em um buraco ou greta, ele caiu da beira do Paso Virginia, mas como estava tudo completamente branco, para a Mary e o Manesh a impressão é que ele estava em um buraco. Sendo impossível subir, andou até chegar no trecho de terra e foi descendo até o bosque, onde colocou a barraca e passou a noite. No dia seguinte continuou descendo, sem saber onde estava a trilha, já que quem tinha GPS era apenas o Manesh, mas no fim do dia chegou na estrada, seguiu até a cidade e, claro, deu entrevistas pros jornais locais, já que ele era o assunto da ilha.

Pra mim, essa história serviu pra reforçar a importância de ter um comunicador via satélite, especialmente um que permita enviar mensagens de texto, não apenas um pedido de socorro que não explica o que está acontecendo. Eu sei que, para um brasileiro, não é um equipamento barato, mas enquanto um casal foi resgatado poucas horas depois de ter pedido ajuda, a pessoa que não tinha o rastreador passou a noite na montanha e só não teve maiores problemas porque, por exemplo, não quebrou a perna com a queda, já que se tivesse que passar a noite em meio à tempestade de neve, talvez não tivesse sobrevivido. Também costumo levar um pouco mais de comida do que é necessário, justamente pro caso de uma emergência me impedir de retornar no tempo previsto ou pra poder ficar acampado esperando o tempo melhorar. Sim, ter mais peso nas costas não é agradável, mas ter a liberdade de chegar um ou dois dias depois do planejado vale esse esforço, a vida é boa demais pra arriscar por conta de um quilo a mais nas costas e uns reais a menos na conta.

18/11/2019 a 29/11/2019 - Sierra Valdivieso e Ushuaia (Argentina)

‘O QUE É QUE EU TÔ FAZENDO AQUI?’ Esse foi o pensamento recorrente que tive durante a travessia da montanha que fica entre a Laguna Esmeralda e o circuito da Sierra Valdivieso. Na verdade eu sabia o que estava fazendo lá, a ideia era ótima, o momento é que não foi bom, mas vamos ao começo disso tudo pra que possam me julgar tendo mais informações.

Antes da viagem, quando eu pesquisava quais os trekkings mais bonitos da Patagônia, o circuito da Sierra Valdivieso aparecia em algumas listas mas não aparecia em outras, então resolvi que iria fazê-lo pra tirar isso a limpo. Dando uma olhada no mapa, vi que a Laguna Esmeralda, um dos pontos mais famosos de Ushuaia, fica em um vale paralelo ao primeiro dia do circuito, e no topo da montanha que divide esses vales há o Glaciar del Albino, então comecei pela laguna pra tentar conectar as duas trilhas, fazendo um circuito mais longo e bonito.

Laguna Esmeralda e, ao fundo, a subida para o Glaciar del Albino

O caminho até a Laguna Esmeralda está muito bem marcado e, como saí cedo, fui o primeiro a chegar. Mesmo tendo a laguna toda pra mim, fiquei só o tempo necessário pra fazer as fotos e comecei a subida pra geleira. A inclinação aumentava à medida que eu subia e, em alguns trechos, não havia proteção em caso de um escorregão, então cada passo na neve era bem testado e, de vez em quando, eu pensava se deveria seguir em frente ou voltar, pra fazer de novo quando não houvesse tanta neve e gelo. Como descer por aquele mesmo caminho não me agradava em nada, achei melhor ir até o cume pra ver o que me esperava do outro lado… Vai que é mais fácil descer por ali, eu pensava. É tão bom enrolar a si mesmo, não é?

Apesar de já ser a segunda quinzena de novembro o lago do Glaciar del Albino ainda estava congelado e a neve cobria quase toda a geleira

Pra minha felicidade havia bem menos neve do outro lado e, pra evitar os trechos mais escorregadios, fui por dentro das canaletas que a água de degelo cavou nas rochas, tendo mais degraus e apoios, já que não me sentia seguro pisando nas pedras pois muitas vezes elas se desprendiam da montanha.

Não sei se o caminho que fiz é o mais seguro mas foi o que me pareceu melhor no momento

Ao final, sem dúvida valeu ter feito esse acréscimo no circuito, deixando o primeiro dia de trilha muito mais bonito que se fosse pelo caminho tradicional, que não tem atrativos e obriga o trilheiro a andar por quilômetros em um turbal irritante.

Parece um bom lugar pra caminhar mas um turbal é como uma esponja, fazendo com que os pés afundem e fiquem constantemente molhadas

Aqui as botas estão pouco afundadas, já que estou parado e com os dois pés no chão, mas ao andar é bem comum afundar até a panturrilha

Não é necessário ser escalador pra fazer esse trecho, mas se você é do tipo que tropeça na própria sombra ou tem medo de áreas expostas, recomendo que faça o circuito tradicional.

Cara de felicidade de quem chegou no vale com todos os ossos inteiros

Andei só mais alguns quilômetros até que encontrei um bom lugar pra acampar e fiquei por ali mesmo, deixando a travessia do Paso Beban para o segundo dia.

Paso Beban visto do Glaciar del Albino

Depois da travessia do dia anterior, mesmo com bastante neve no Paso Beban, atravessá-lo foi como um passeio no Central Park, e durante a descida encontrei as primeiras represas feitas por castores, que apesar de bonitas causam um impacto enorme nesse frágil ecossistema.

Eles são bonitinhos mas estão no lugar errado, pois como não têm predadores na Terra do Fogo, estão se multiplicando demais e dizimando enormes áreas de floresta

Uma das muitas castoreiras da Terra do Fogo

Depois do Paso Beban, a próxima travessia é a do Paso Mariposa, mas minha intenção era de fotografar a Laguna Azul, quase na metade da subida desse paso e, supostamente, o trecho mais bonito do circuito. Imagine o tamanho da minha decepção quando cheguei nela e encontrei tudo congelado, um enorme tapete branco em vez de lagunas coloridas.

Laguna Azul congelada

Enfim, já sabendo que eu teria que voltar depois que as lagunas descongelassem, resolvi dormir na beira da laguna e seguir no dia seguinte para o Lago Fagnano, conhecendo um novo caminho pra poder comparar com o circuito tradicional. Só me esqueci de combinar com a Patagônia, que não concordou com meu plano e mandou ventos que me expulsaram dali, então decidi ir pro Lago Fagnano no mesmo dia, aproveitando que nessa época escurece muito tarde e teria que caminhar só mais 10 km.

Lago Fagnano visto da descida da Laguna Azul

É, são só mais 10 km, mas logo percebi que a trilha estava fechada por árvores caídas, então quase todo o trecho foi feito varando mato ou andando pelo charco. E enquanto andava, pensava que talvez chegasse no lago e não tivesse onde montar a barraca, já que ele não tem muitas praias. Será que teria esse azar?

Sim, tive esse azar, veja a falésia na margem do lago Fagnano

Ao ver que não poderia acampar ali, resolvi seguir no sentido oposto ao que eu iria no dia seguinte porque naquela direção parecia haver uma praia.

Mais 2 km e finalmente eu tinha um lugar plano e bonito pra passar a noite

O terceiro dia começou por uma trilha bem marcada até a Bahia Torito, e de lá peguei outra trilha até a subida do vale que me levaria novamente ao circuito tradicional, só que mais vez o caminho estava bloqueado por árvores caídas, então varei mato por alguns quilômetros até chegar na primeira das Lagunas Mariposa, caminhando sempre sob chuva, o que me impediu de fotografar algumas belas cachoeiras.

Primeira Laguna Mariposa e, ao fundo, o Lago Fagnano

Quando cheguei no alto do Paso Valdivieso a chuva parou e resolvi dormir na beira da Laguna Mariposa que fica no alto do paso, na esperança de haver uma melhora no dia seguinte. Pra minha sorte a melhora veio logo depois e consegui fotografar essa laguna, mas essa foto irá apenas para o livro, não pra internet, me desculpem.

No dia seguinte não dei sorte e o tempo amanheceu fechado, com nuvens cobrindo as montanhas, então decidi ir direto pra Ushuaia. O caminho muitas vezes estava mal marcado ou a trilha se perdia entre árvores caídas, mas ainda estava bem mais fácil de andar que o caminho pro Lago Fagnano, mesmo porque sempre havia a opção de ir pro turbal se eu me cansasse de varar mato.

A trilha perto da estrada está mais bem cuidada porque muita gente faz trilhas de um dia para os lagos e cachoeiras da região

Se você chegou até aqui, já percebeu que esses dias não foram muito produtivos, exceto por confirmar que é muito mais bonito começar o circuito da Sierra Valdivieso pela Laguna Esmeralda. Sobre Ushuaia não postei nada porque durante a semana em que fiquei na cidade apenas editei fotos, só um dia que saí pra passear e fiz a trilha pro Glaciar Vinciguerra, mas agora é hora de ir ainda mais pro sul pra fazer o circuito Dientes de Navarino, no Chile. Na volta eu me entendo com a Sierra Valdivieso…

17/11/2019 - Parque Pinguino Rey (Chile)

Se você está acompanhando as fotos e textos da minha viagem pela Patagônia, já sabe que meu objetivo é conhecer e fotografar os trekkings mais bonitos da região, mas não dá pra passar pela Terra do Fogo sem visitar sua colônia de pinguins-rei, a segunda maior espécie de pinguim, perdendo apenas para o pinguim-imperador, que vive apenas na região antártica.

O pinguim-rei chega a 95 cm de altura e 15 kg e, no Parque Pinguino Rey, a colônia tem algumas dezenas de machos, fêmeas e filhotes, variando a quantidade de acordo com a época do ano. Eu estive lá no começo de novembro e contei mais de cinquenta adultos e dois filhotes, que podem ser observados pelo tempo que o visitante quiser, mas de áreas estabelecidas para que as pessoas não os incomodem e, com isso, eles acabem procurando outro local para sua colônia.

Se tiver a chance de visitar esse parque, não perca, vi algumas pessoas falando que não iriam porque já haviam visto pinguins em outros locais mas, que o pinguim-de-Magalhães não se ofenda, o pinguim-rei é muito mais bonito.

Pra ter mais informações, acesse a página do Parque: https://pinguinorey.com/descubre-al-pinguino-rey/

Vista geral da colônia

Vista geral da colônia

Alguns pinguins dormem deitados mas a maioria apenas deixa a cabeça caída pra um dos lados enquanto dorme

Casal feliz fazendo mais pinguins

Os dois filhotes dessa colônia

Apesar dos pontos de observação não serem muito próximos à colônia, com uma lente zoom é possível fotografá-los bem e há lunetas à disposição dos turistas, mas se você tem binóculos, leve pois será útil

Mais um pinguim se juntando ao grupo

09/11/2019 a 16/11/2019 - Cabo Froward (Chile)

Na época das pesquisas sobre as trilhas mais bonitas da Patagônia, de vez em quando aparecia o trekking para o Cabo Froward, que é o ponto mais ao sul do continente sem precisar atravessar o Estreito de Magalhães. Vi muitas fotos, li muitos relatos e não conseguia entender porque algumas pessoas falavam que esta trilha está entre as mais bonitas de uma região como a Patagônia, com suas majestosas montanhas. De qualquer forma, coloquei na lista das trilhas a fazer se sobrasse tempo. Quando cheguei em Punta Arenas eu não tinha tempo sobrando, na verdade estava atrasado na minha programação, mas como esse inverno foi longo e as lagunas nos meus próximos destinos ainda estavam congeladas, resolvi fazer a trilha pra passar mais uns dias e ter tempo do sol aparecer pra derreter todo esse gelo.

Punta Arenas é uma cidade com grande número de turistas mas que mantém um ar de cidade real, com serviços que não se consegue em uma cidade voltada apenas ao turismo. E ainda por cima fica em frente ao Estreito de Magalhães com suas aves, pinguins e baleias, mas essas apenas no verão.

Quando o verão se aproxima e a temperatura sobe, os moradores correm para as praças pra aproveitar a vida ao ar livre.

A cidade base é Punta Arenas, mas como ela fica a 70 km do início da trilha, deixei meus equipamentos no Hostal Innata Patagonia, que apesar do nome não é o que no Brasil nós chamamos de hostal (albergue). Na Patagônia eles usam esse nome tanto para um local com camas em quartos compartilhados como para o que nós chamamos de pousada, e nesse caso é uma pousada bem confortável, com quartos privativos e apartamentos com cozinha. Enfim, fui muito bem recebido em meus dias na cidade e tenho que agradecer por terem guardado o monte de malas de equipamentos de foto e montanhismo durante os dias que eu ficaria fora, já que o carro ficou na estrada.

Nascer do sol no caminho que leva ao início da trilha

Saí bem cedo de Punta Arenas e comecei a caminhar às 07:00. O dia estava nublado e o mar, incrivelmente calmo, não havia uma onda sequer! Logo percebi que a caminhada, apesar de ter poucas subidas, não seria tão fácil, já que precisaria caminhar em diferentes terrenos que quase sempre faziam a velocidade ficar baixa.

Apesar de parecer firme, esse cascalho afunda com cada passo, fazendo com que o desgaste seja como o de uma leve subida

Na maré baixa há mais espaço para caminhar mas é bom ter muito cuidado pra não escorregar nas algas

Vez por outra era necessário pegar uma trilha que desviava de trechos de costão ou mesmo de praias que ficam sob a água com a maré alta. A marcação dessas trilhas foi feita do modo mais improvisado que já vi, com fitas coloridas, sacos plásticos e até mesmo peças de roupas velhas como meias, cuecas e gorros. Um tanto quanto tosco mas não posso negar que funcionou muito bem!

Faro San Isidro, bastante visitado por quem quer fazer trilha em um dia apenas

No primeiro dia encontrei apenas 3 chilenos que estavam voltando pra cidade pois não encontraram o caminho pro Faro San Isidro. Achei estranho porque supostamente seria só seguir pela praia e talvez pegar uma trilha lateral por um curto trecho, mesmo assim perguntei se queriam me acompanhar mas eles ficaram com vergonha ou não sentiram confiança aqui no gringo, então segui em frente e cheguei em meia hora no farol, sem entender como não encontraram um caminho tão fácil.

Bahia del Cañon

A ilha Tortuga pode ser acessada sem molhar os pés quando a maré está baixa

Em todo o percurso há quatro rios que precisam ser cruzados, mas dois deles estão com muitas árvores caídas e dá pra ir se equilibrando até a outra margem. Para atravessar os outros dois é recomendável esperar a maré baixa, já que a água é incrivelmente fria e a corrente pode ser forte, dependendo da vazão dos rios. Eu até tentei atravessar o rio San Nicolas, que é o mais fundo, com maré média, mas voltei quando vi que teria água até o peito, então fiquei esperando por duas horas até a maré mais baixa. Entrei na água, o rio foi ficando cada vez mais fundo e eu pensando “o saco não, por favor, o saco não”, e quando a água estava quase lá eu passei a andar na ponta dos pés, quase usando os bastões como pernas de pau. Apesar da cena ridícula, cheguei feliz do outro lado por não ter colocado meus órgãos vitais na água de degelo, e enquanto as mulheres agora estão me julgando, tenho certeza que os homens que estão lendo esse texto me entendem perfeitamente.

Atravessando o rio San Nicolas com a maré baixa

Sabendo que a maré não subiria mais, aproveitei pra acampar bem perto da água

Nascer do sol visto da frente da barraca

O segundo dia estava com o clima igual ao do primeiro, quase sempre nublado, de vez em quando com um pouco de sol ou garoa. A diferença foi que nesse dia o avistamento de fauna foi bem mais intenso, com diversos grupos de golfinhos, alguns lobos marinhos e até mesmo 4 orcas, que pude reconhecer apenas pelo tamanho das barbatanas dorsais, já que estavam muito longe da costa. Mesmo distantes foi um encontro empolgante, já que eu nunca imaginei ver orcas durante um trekking.

Vi dezenas de golfinhos no segundo e terceiro dias, pena que eles são tímidos e não deram saltos para a câmera, isso foi o máximo que um deles se expôs

Vi menos lobos marinhos que golfinhos, mas eles se exibiram um pouco mais

Quando cheguei perto do Cabo Froward, resolvi subir o morro em que está a Cruz de los Mares levando todo o equipamento, assim eu poderia acampar no cume e fazer fotos noturnas com mais facilidade. Pra minha felicidade, não só existe uma pequena área em que se pode montar uma barraca como também há um lago perto pra pegar água, então fiquei por ali mesmo, só não dei sorte de ter uma noite sem nuvens, então o que fiz foi dormir bastante, o que também não é um programa ruim.

Essa é a Cruz de los Mares, construída a 400 metros de altura no Cabo Froward, o ponto mais austral da massa continental da América (ponto mais ao sul que se pode chegar sem atravessar um braço de mar). A cruz tem 24 metros de altura e foi construída pela primeira vez em 1913, mas por causa das severas condições climáticas, precisou ser refeita várias vezes, sendo que a atual é toda de metal vazado e foi instalada em 1987, com uma homenagem à visita do Papa João Paulo II ao Chile naquele mesmo ano. 

Para ter melhor noção de tamanho, eu estou abaixo da cruz, com uma jaqueta vermelha

Acordei com tempo feio demais mas ao menos não chovia como durante a noite, então coloquei tudo na mochila antes que a chuva voltasse e comecei a descer o morro, que nos trechos mais íngremes têm escadas de metal pra facilitar o acesso. A primeira escada exigia um pouco de atenção pois os degraus são bem pequenos, já a segunda era como a escada de uma casa e fui tranquilo, só que escorreguei assim que dei o primeiro passo e só fui parar no fim dela, uns 5 metros abaixo. Ainda sem entender o que havia acontecido, levantei, chequei se os ossos estavam todos no lugar e xinguei a escada. Olhando de baixo é que pude ver que os degraus não estão paralelos ao chão, a base da escada deve ter cedido com o tempo e os degraus ficaram inclinados pra baixo, virando um escorregador.

Há cordas em alguns trechos para ajudar os trilheiros

Chegando à praia havia um pouco de vento mas nada que incomodasse pra caminhar, problema é que o barulho das ondas impedia que eu ouvisse a respiração dos mamíferos marinhos, então nesse dia encontrei só alguns golfinhos, além dos sempre presentes pássaros e, na maré baixa, das anêmonas e algas.

Novamente andei mais rápido do que imaginei e cheguei cedo pra atravessar o rio, dessa vez o Nodales, que é mais raso e, na maré baixa, pude passar com água pouco acima dos joelhos. Ao menos dos joelhos de quem tem 1,84 m, na dúvida mande primeiro o mais alto do seu grupo pra ser o boi de piranha.

Enquanto esperava a maré baixar, fiquei fotografando os albatrozes que estavam descansando na beira do mar

A cada movimento mais brusco eles fugiam mas voltavam em menos de um minuto

Um belo entardecer no terceiro dia

Pôr do sol no acampamento do terceiro dia

Assim como o primeiro dia, o último não teve avistamento de fauna que chamasse atenção, então andei sem pausas até o carro, já que mesmo tendo ouvido diversas vezes que é seguro deixá-lo no fim da estrada, eu queria ter certeza que ele estava no mesmo lugar e sem nenhum dano, além de chegar logo no quarto aquecido, tomar um banho quente e dormir em uma grande e confortável cama.

Acho bom dizer que esse trekking é melhor feito em 5 dias, em 4 dias fica um pouco corrido pois são 80 km e o esforço pra andar na praia ou sobre pedras soltas é diferente do esforço feito em trilhas de terra firme.

Como o objetivo da minha viagem é descobrir quais são os trekkings mais bonitos da Patagônia, agora posso dizer que minha impressão ao ver as fotos dos outros trilheiros estava certa, é uma caminhada bonita mas não pode competir com as trilhas nas montanhas dos andes patagônicos. Caso você vá pra Punta Arenas e tenha uns dias sobrando, faça a trilha que irá se divertir, ao menos eu gostei, só não recomendo que saia do Brasil tendo como objetivo principal fazer essa caminhada, existem outros lugares bem mais interessantes e em breve vou postar mais alguns relatos que superam facilmente o Cabo Froward.

25/10/2019 a 08/11/2019 - Torres del Paine (Chile)

Mirador Los Cuernos, com vista para o lago Nordenskjöld e os Cuernos del Paine, onde passei a tarde do dia mais bonito

Torres del Paine é conhecido em todo o mundo por ter um dos circuitos de trekking mais bonitos do planeta. Mas isso vem com um preço, que é alto para quem não ganha em dólares ou euros, além de ser bastante irritante e complicado fazer as reservas do circuito Macizo Paine, mais conhecido como O, ou do circuito W. O circuito O é o maior e costuma levar 8 dias para ser feito, já o circuito W é uma parte do O, deixando de lado um terço dele e sendo bem mais lotado, já que a quase totalidade das pessoas opta por esse roteiro. Para ler um relato sobre o circuito O que fiz em 2011, acesse esse link: http://ricardoferes.com/project/torres-del-paine-chile/

Nesses 15 dias tive dois pores do sol bonitos, esse é um deles, o outro ficará guardado pro livro

A minha primeira viagem para Torres del Paine foi em novembro de 2011, em uma época em que era possível ir sem reserva e pagar os campings no próprio local, sem burocracia alguma. Agora em 2019 é preciso reservar e pagar tudo com antecedência, já que o parque fica lotado desde o meio da primavera até o fim do verão. Eu tentei fazer reservas pro circuito O dois meses antes da minha chegada e não consegui. Haviam vagas se eu quisesse alugar barraca ou dormir nos refúgios, mas levando minha própria barraca e comida, não pude. Imagino que deixem pouquíssimas vagas pra quem viaja de modo independente, já que esse tipo de trekking dá pouco dinheiro para os refúgios. Pra piorar, existem 3 diferentes administradores dos campings e refúgios, sendo duas empresas privadas e a CONAF, o órgão federal que controla os Parques Nacionais chilenos. Tente fazer as reservas nos três de modo que a data de uma empresa encaixe na data da outra empresa e entenderá minha indignação…

Enfim, eu só consegui fazer reservas pro circuito W e, mesmo assim, tendo que chegar 15 dias antes do que eu estava planejando, mas se é o que tem, é o que vai. Como o vidro do carro (explicação na postagem anterior) ficou pronto 8 dias antes da minha primeira noite reservada em Paine, resolvi ir para o parque e dormir no camping Pehoé, fazendo algumas trilhas fora do circuito O ou W. Para minha feliz surpresa, existe um mirante incrível bem perto do Camping Pehoé, chamado Mirador del Cóndor, assim como uma pequena e linda praia no próprio camping, que fica em frente ao lago Pehoé.

Uma das praias junto ao Camping Pehoé

O que não me ajudou muito foi o clima, que por aqui costuma ser bem instável, indo de sol pra chuva (ou neve) em questão de minutos, mas nesses 8 dias o tempo ficou quase sempre nublado em volta das montanhas, que são o objetivo da minha viagem. Aproveitei então pra descansar, ler e conversar com um grande fotógrafo que também estava acampado lá, junto com sua amiga, ambos chilenos e moradores de Puerto Natales.

No dia que amanheceu bonito eu peguei o carro e fui ara o outro lado do parque pra fotografar a Cascada Paine com as Torres ao fundo, mas naquela região haviam nuvens. Eu voltarei!

Eu passava a maior parte do tempo no carro, estacionado com vista para as montanhas, à espera do tempo melhorar. Em um dos dias, lá pelas 20:00, resolvi ir para o restaurante editar as fotos e pouco depois entrou um holandês todo agitado me perguntando se eu havia visto o puma. Achei que ele estivesse me sacaneando ao dizer que o puma passou bem do lado do meu carro, mas ao ver as fotos que o funcionário do camping fez com o celular, vi que não era piada, um puma passou exatamente no lugar em que eu estava parado por horas, só que uns 15 minutos depois que eu saí. E ainda por cima, pra terminar de me provocar, ele ficou sentado em um mato baixo posando pro celular do Marinero, esse funcionário gente fina que trabalha no camping Pehoé. Dois dias depois chegou um pessoal de carro e falou que viram um puma cruzando a estrada, também no fim do dia, ou seja, parece que esse é o horário que devemos ficar de olhos abertos, já que é quando eles saem para caçar. Um dia vai chegar minha vez, ah vai…

Ao menos a Laguna Amarga eu consegui fotografar nesse dia, vejam as nuvens que impediam a vista a partir da cachoeira que fica abaixo desse ponto

Terminados os 8 dias de espera com algumas trilhas, hora de iniciar o circuito W, finalmente! O primeiro dia foi de ascensão ao camping Chileno, que fica a duas horas das torres que dão nome ao parque. Chegando no camping no começo da tarde e vendo que as torres estavam escondidas atrás das nuvens, resolvi descansar até a madrugada seguinte pra subir antes do nascer do sol e fotografá-las pintadas de laranja, como fiz na minha primeira viagem. Só esqueci de combinar com o clima, já que durante a noite nevou bastante e de madrugada o cenário estava ainda pior, então outra vez, nada de ir para as torres. Só quem estava feliz com aquele clima foi um casal de brasileiros que estava terminando o W (esse ponto pode ser o início ou fim do circuito) e nunca haviam visto neve, então foram felizes até as torres, não as viram mas voltaram contentes porque ver neve pela primeira vez é realmente marcante. Já eu, segui até o camping Francés, que fica bem perto do Valle del Francés, à espera do dia seguinte.

Manhã do segundo dia, que seria dedicado às Torres se não fossem as nuvens

O terceiro dia amanheceu nada promissor mas, mesmo assim, subi o vale com aquela mínima esperança de que poderia melhorar. E melhorou! Ao chegar no Mirador Francés as nuvens começaram a dar espaço para o sol e o ânimo de todo mundo que lá estava melhorou bastante. Hora de correr pro Mirador Británico, já que sol por aqui pode durar poucos minutos, mas no caminho, ao ouvir o barulho de uma avalanche, vi que não era uma avalanche qualquer, foi a mais bonita que já presenciei e consegui fotografá-la quase toda, perdendo só o começo por conta do tempo de pegar a câmera dentro da bolsa e ligá-la. Animado por ter presenciado e fotografado algo tão impressionante, segui até o Mirador Británico e consegui fazer algumas fotos um pouco antes de chegar, já que aí as nuvens voltaram a esconder as montanhas. Tudo bem, ao menos esse dia foi produtivo e segui até ao camping Paine Grande curtindo o visual do vento sobre os lagos, que levantava a água como se estivesse chovendo.

Tempo fechado no Valle del Francés, que felizmente melhorou e me deu de presente o vídeo abaixo

Noite toda de muita chuva e o quarto dia começou péssimo, com todo mundo que estava acampado sem saber o que fazer: seguir para o Grey ou permanecer mais um dia? Eu tinha duas noites reservadas no Grey, então pedi pra dormir no Paine Grande de novo, não fazia sentido nenhum caminhar sob chuva outro dia. Passei o dia na barraca ou no refeitório, lendo e conversando com gente de todo o mundo. Tá bom, mais lendo que conversando, mas garanto que bati um bom papo com um grupo de mineiros e fiz a social da semana.

Nesses dias em Paine foram 2,5 livros lidos, ao menos a leitura rendeu bastante

Quinto dia amanheceu com chuva leve e, de qualquer forma, agora as opções eram de ir pro camping Grey ou ir embora. Melhor ir pro Grey e ver no que dá… Caminhada sob chuva fraca ou média, até que parou no começo da tarde. Montei a barraca e fui até o mirante que dá vista frontal pro glaciar, quando tive sorte de não chover e poder fotografar um pouco. Querer sol e céu azul pra mostrar a linda cor dos icebergs já seria demais, então me contentei com a falta de chuva e voltei pro camping, sempre de olho no céu pra ver se teria um belo pôr do sol, coisa que não aconteceu.

Icebergs do Glaciar Grey

No dia seguinte, o sexto, a volta pro camping Paine Grande foi mais uma vez sob fortes ventos, alguma chuva e nenhum visual bonito. No caminho fiquei pensando se deveria já pegar o barco no fim do dia pra buscar o carro e ir embora, assumo que em todos esse tempo não pude deixar de me preocupar com os equipamentos que estão no carro. Mesmo com essa preocupação, acabei ficando outra noite no Paine Grande para, em vez de voltar de barco, voltar por uma trilha que ainda não conhecia, o que me deixou mais animado.

Acordei no sétimo dia e iniciei a caminhada às 06:30, andando rápido porque tinha que estar na parada do ônibus antes das 12:30 e haviam 19 km pra percorrer. A trilha foi ainda mais fácil do que pensei, plana em seu maior trecho, e cheguei às 11:00. Em vez de esperar o ônibus, resolvi pedir carona e ver se alguém levaria um trilheiro sujo. Primeiro carro, não deu. Nem o segundo, terceiro, décimo… Até teve uma família que parou mas já haviam cinco pessoas no carro e eu mesmo disse que não teria como colocar mais um ali, ainda mais um que está sujo e suado. Felizmente, logo depois parou um casal de uns 65 anos, de Praga, na República Checa, e eles me levaram por dois terços do caminho, quando tiveram que desviar da minha estrada. Eles falavam um inglês muito ruim mas mesmo assim não tinham vergonha de conversar sobre seu país, perguntar do Brasil, enfim, um bom exemplo de que é possível ter alma de mochileiro mesmo na terceira idade.

Trilha Paine Grande – Las Carretas, que leva do camping Paine Grande até a estrada de onde se pode pegar o ônibus ou carona

Voltando à estrada, fiquei ali parado pensando se precisaria de outra hora e meia de espera até alguém me levar ao destino final, mas não se passaram 10 minutos até que dois homens, na faixa dos 20 e poucos anos, parassem e rearrumassem a bagunça do banco de trás pra que eu pudesse entrar. O mais curioso não foi o pouco tempo de espera, foi que os dois também são de Praga, a mesma cidade da carona anterior! Quando eu for pra República Checa, acho que só vou viajar de carona… Depois que me deixaram na portaria, esperei o ônibus que me levaria até o estacionamento e fiquei relembrando a viagem anterior e como o clima influencia demais na percepção do local. Pra explicar melhor, vale dizer que as pessoas que conheci durante o circuito W nesse ano, quando eu perguntava o que estavam achando, diziam que é bonito, que estão gostando, mas sempre sem empolgação. Teve até um casal que falou que Pucón é muito mais bonito que Torres del Paine, mas a verdade é que eles tiveram uma experiência bem melhor em Pucón porque lá tiveram dias de sol e puderam aproveitar a natureza impressionante dos Andes em sua plenitude, o que me leva a dar uma dica importante pra quem quer conhecer Torres del Paine: venha com tempo, senão você vai pegar alguns aviões e ônibus, gastar um bom dinheiro e talvez não se impressionar com nada do que o parque pode te oferecer. Já os dias que tive no camping Pehoé serviram pra me mostrar que o Parque pode ser muito bem aproveitado por quem não quer fazer trilhas longas ou mesmo pra quem quer apenas passar de carro, pois a estrada que corta o parque oferece vistas de deixar qualquer pessoa impressionada, então seja lá qual for seu estilo de viagem, pode ir pra Paine que, se o tempo permitir, vai voltar com uma viagem inesquecível na bagagem. E eu, ainda nessa viagem volto mais uma vez pro Parque pra tentar fazer as fotos que me faltam, que a sorte esteja comigo!

Uma das fotos que preciso refazer é aqui, no Mirador Ferrier, uma subida de duas a três horas que leva a um dos mirantes mais bonito do parque, mesmo comparando com os do circuito O

Pra quem quer fazer uma trilha curta, a que leva ao Salto Grande é uma ótima opção

22/10/2019 a 24/10/2019 - Puerto Natales (Chile)

Puerto Natales é uma pequena cidade à beira mar, apesar que o golfo Almirante Montt mais parece um grande lago, por ser cercado de montanhas nevadas. Quem vem a Natales quase sempre tem como destino o Parque Nacional Torres del Paine, enquanto que eu vim pra poder trocar o vidro quebrado do meu Jimny e, pra minha alegria, quando cheguei na cidade o vidro também já havia chegado, só que ele veio de ônibus desde Punta Arenas, evitando que eu tivesse que dirigir ainda mais longe.

Golfo Almirante Montt

O serviço não poderia ter sido mais porco, já que riscaram a lataria em vários pontos, acho que até o ladrão foi mais cuidadoso que o tal “profissional” da loja Solovidrios, mas eu nem me preocupei em reclamar porque não resolveria nada e também porque não ligo se a lataria tem mais uns riscos, importante é a mecânica estar em bom estado.

Pôr do sol em Puerto Natales

Pôr do sol em Puerto Natales

Pôr do sol em Puerto Natales

Aproveitei os dias na cidade pra editar fotos e ver os protestos que estão sacudindo o Chile, mas que aqui são pacíficos, inclusive com crianças e idosos participando das passeatas, nada como em Santiago ou em outras grandes cidades chilenas.

Plaza de Armas Arturo Prat

Protesto começou com música e depois teve uma tranquila passeata pela cidade, sob o olhar curioso dos turistas

Depois de tudo pronto eu tinha 8 dias livres antes da reserva pra fazer o circuito de trekking em Torres del Paine, então decidi ir antes pra conhecer e fotografar outras áreas do parque, mas isso é assunto para a próxima postagem.

20 e 21/10/2019 - El Chaltén pela segunda vez

De volta a Chaltén, com o tempo um pouco melhor, resolvi completar o circuito que havia feito há alguns dias. Agora faltava fazer a trilha até a Pedra do Fraile e depois seguir para o mirante do Glaciar Piedras Blancas até chegar no ponto que já havia caminhado.

Equipamentos prontos, café da manhã finalizado, entrei no carro pra ir até o início da trilha e encontro o vidro lateral traseiro quebrado. Consegue imaginar minha surpresa e decepção? Primeiro pensei que poderia ter sido o vento, ou a diferença térmica, ou que algum desastrado bateu sem querer, mas ao ver que outro carro também teve o vidro quebrado, percebi que foi mesmo coisa de um ladrãozinho incapaz até de arrancar um vidro quebrado. Em uma cidade em que as casas e comércios não tem cercas nem portões, tinha que começar a acontecer isso justamente agora e comigo?

Enfim, hora de fazer B.O. e sair em busca de um novo vidro, mas no sul da Patagônia isso pode ser um desafio, ainda mais porque tenho um Suzuki Jimny e não existe Suzuki na Argentina. Depois de dois dias consegui que enviassem um vidro pra Puerto Natales, uma cidade no Chile que fica a umas 6 horas de Chaltén e é pra lá que eu vou, mesmo com protestos por todo país.

17/10/2019 a 19/10/2019 - Glaciar Perito Moreno e El Calafate (Argentina)

Eu ainda tinha muitas trilhas pra fazer em El Chaltén, mas como a previsão do tempo estava ruim para os próximos 3 dias, resolvi ir pra El Calafate, assim durante os dias nublados eu faria as fotos de alguns hotéis e, quando melhorasse, conheceria o tão famoso Glaciar Perito Moreno.

A estrada entre Chaltén e Calafate não tem muitas vistas bonitas, só quando ela se aproximou do Lago Argentino que tive motivo pra parar e fotografar um pouco.

O Lago Argentino é o maior lago que está integralmente dentro da Argentina, já que o Lago Buenos Aires tem parte de sua área no Chile

Calafate é uma cidade que, assim como Chaltén, sobrevive do turismo. Calafate é maior, tem mais opções de serviços mas, ao contrário de Chaltén, não é charmosa, apesar de ser bonita e organizada. Enfim, é uma boa base para os passeios pro glaciar, que podem ser feitos apenas com uma caminhada pelas passarelas, com passeios de barco ou com um trekking sobre o glaciar.

A geleira tem 5 km de frente, quase sempre em contato com o lago, apenas um pequeno trecho está avançando sobre terra

A altura da geleira no ponto onde se encontra com o lago fica entre 60 e 75 metros

Face sul do Perito Moreno

Como Calafate não tem travessias de trekking e, portanto, não faz parte do meu projeto, resolvi entrar no modo turista preguiçoso e apenas passei uma ou duas horas andando pelas passarelas, que oferecem vistas impressionantes para uma das maiores geleiras do mundo.

Fiquei apenas umas duas horas nas passarelas, tempo suficiente pra percorrê-las com calma e fazer umas fotos de turista, já que essa geleira não faz parte do meu projeto.

Fotos para os hotéis prontas, geleira visitada, hora de voltar pra El Chaltén pra continuar com os circuitos de trekking.

10/10/2019 a 16/10/2019 - El Chaltén (Argentina)

A estrada pra El Chaltén teve diversos encontros com flamingos e guanacos

Há anos que eu estava curioso pra conhecer El Chaltén, uma charmosa vila que se autointitula como a capital do trekking da Argentina. Ainda antes de chegar na vila a vista para o maciço do Fitz Roy impressiona e faz com que o motorista divida sua atenção entre a estrada e as montanhas.

El Chaltén e o Fitz Roy vistos de um mirante ao lado da estrada

Ao chegar em Chaltén vem a boa sensação de estar em um local que vive do turismo mas que não perdeu sua alma por isso. Dá gosto passear pra conhecer seus bares, restaurantes e, como em toda pequena cidade da Patagônia, pra brincar com os muitos cachorros soltos pelas ruas. E foi o que eu fiz nos dois primeiros dias, enquanto esperava o tempo melhorar para poder fazer o primeiro circuito da minha lista.

Em Chaltén se pode fazer quase todas as trilhas no estilo bate-volta, pra quem quer ter o conforto de dormir na vila, mas eu não sou o maior fã de ir e voltar pelo mesmo caminho, então juntei diversas trilhas pra caminhar em um circuito de 4 dias, acampando pelo caminho. O outro circuito que quero fazer, em volta do Cerro Huemul, só pode ser feito com acampamentos, mas esse vai ficar pra depois, agora é a hora de conhecer o tão famoso Fitz Roy!

Não é raro avistar um pica-pau pelas trilhas da Patagônia

A previsão dizia que haveriam dois dias de muito sol e um terceiro dia com mudança de tempo à tarde, então resolvi retirar a primeira perna do circuito pra fazê-la depois, estando assim nos pontos mais importantes (Fitz Roy e Cerro Torre) nos dias com melhor luz pra fotografar. Já que haviam me falado que um remis (táxi com preço fixado antes da corrida) até o início da trilha sairia por 800 a 1000 pesos (60 a 75 reais), resolvi ir com uma van que cobra 400 pesos e sairia às 07:30, tendo como destino a Hostería El Pilar.

Eu preferiria ir antes, mas pela diferença de preço, sem problemas em perder meia hora. Aí vem a primeira dica: não peguem as vans, elas se atrasam pra chegar, daí se perde ainda mais tempo porque passam em outras pousadas e andam incrivelmente devagar na estrada de terra. E eu ali, olhando aquela luz incrível e pensando se chegaria em tempo de fotografar… Respira fundo, relaxa que não tem o que fazer e a previsão é boa pros outros dias também.

Outra coisa que eu não sabia é que a van faria paradas pelo caminho, dando tempo pra quem quer fazer selfies e ouvir chatices curiosidades sobre a região. Bom, já que não tinha jeito, também saí pra fotografar e foi quando vi que o polarizador estava errado, não tinha o mesmo tamanho da lente que uso pras trilhas. Epa, espera aí, o polarizador está certo, a lente é que está errada! Pois é, na noite anterior a lua estava tão linda que eu coloquei a teleobjetiva pra fotografá-la, voltei correndo pra pousada e me esqueci de recolocar a lente certa. Enfim, fico imaginando o que pensaram as pessoas que me viram olhando pra câmera e falando “MERDA MERDA MERDA” sei lá por quantas vezes.

Aqui a culpada por eu estar com a lente errada. Afinal, como já disse Homer Simpson, a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser

Avisei o motorista da van que eu voltaria andando e tentaria uma carona pelo caminho. Uns 5 minutos depois já apareceu uma picape vermelha, estiquei o dedão e, só por garantia, fiquei no meio da estrada, assim se ele não quisesse me dar carona, teria que me matar. Chegando em Chaltén, o chileno gente boa que estava dirigindo me falou que precisava virar à direita, então eu desci e saí andando rapidamente pra pousada, quando vi que o celular não estava no bolso. Imagine a cena de um sujeito com uma cargueira nas costas correndo atrás de uma picape vermelha… Eu sei, pode rir, agora eu também dou risada disso, mas na hora eu só conseguia pensar “parece a primeira vez que você faz trekking, que idiota!”.

Enfim, cheguei na pousada, troquei a lente, chamei um remis e daí soube que custaria 1.500 pesos! Até ontem estava entre 800 e 1.000, agora custa 1.500? Dei tchau e boa sorte pra taxista exploradora e resolvi fazer esse circuito por outra trilha, com início na própria cidade, já que eu não iria mesmo pra Pedra do Fraile. Irritado (comigo mesmo) até não poder mais, pensei “essa é a hora de usar os ensinamentos da meditação e yoga”, mas logo me lembrei que não consigo meditar e que só fiz 3 aulas de yoga, então resolvi andar até as coxas ficarem queimando, isso sim me acalma.

No final, quer saber? Mudar o ponto de início da caminhada foi a melhor decisão, já que a trilha que sai de Chaltén em direção ao Fitz Roy é linda demais, quase sempre com vista pra montanha, que vai crescendo a cada passo.

A trilha tem pouca elevação até chegar o último km, quando fica bem íngreme pra poder vencer um desnível de 500 metros. Enfim, a subida não é grande coisa pra quem tem costume de fazer trilhas, levando o trilheiro até a Laguna de los Tres, bem na frente do Fitz Roy, que se eleva por mais de 2 km acima da laguna, atingindo 3.350 metros de altitude.

As trilhas são bem marcadas e há pontes nos trechos com água

A dica número dois pra quem quer conhecer Chaltén é: vá no verão. Isso porque no inverno a Laguna de los Tres fica congelada e, se você não souber que ali tem um lago, vai achar que é uma planície na beira da montanha. Claro que é bonito, mas a vista que se tem no verão é ainda mais cativante, então eu voltarei em janeiro pra ter esse visual também.

Dica três é: durma no acampamento Poincenot e madrugue pra poder estar lá em cima logo cedo, vendo o sol pintar o Fitz Roy de laranja. É importante saber que o sol bate na montanha meia hora antes do horário em que ele nasce, de acordo com os aplicativos, que estão ajustados para quem está bem abaixo, lá na vila. Muita gente chegou no horário oficial que o sol nasce mas perdeu o melhor momento.

Em vez de acordar pra ver o sol nascer, resolvi ir durante a noite pra poder fotografar sob a luz da lua cheia. Não vou dizer que é agradável sair da barraca no meio da noite e passar horas a 4 graus negativos, mas valeu cada segundo, foi bom demais estar na beira da laguna sozinho, com a lua iluminando as montanhas e sem ouvir qualquer barulho que não fosse da minha respiração.

Sem dúvida uma das noites mais bonitas que já tive nas montanhas

Me aquecendo um pouco antes do café-da-manhã

Junto com a luz foram chegando as pessoas e, depois de tomar café e me aquecer, era hora de seguir até o acampamento De Agostini, junto da Laguna Torre, que dá vista pro Cerro Torre. Dia de caminhada bem tranquila, já que o ganho de elevação é pequeno. Chegando no acampamento, montei a barraca e fui dar uma olhada na laguna, mas como a luz não estava boa, resolvi ficar na barraca e dormir bem cedo pra, mais uma vez, acordar de madrugada e aproveitar a luz da lua e o amanhecer.

Amanhecer com vista pra Laguna Torre e o Cerro Torre, considerada por muitos como umas das escaladas mais difíceis do mundo

Mais uma vez, aproveitando cada raio de sol pra espantar o frio

Depois de mais um café com vista panorâmica, desmontei acampamento e voltei pra El Chaltén com a certeza de que o título de capital argentina do trekking não é à toa.

07/10/2019 a 09/10/2019 - Parque Nacional Los Alerces (Argentina)

Chegando em Los Alerces pela portaria norte

Já que o clima me fez adiar a travessia que eu queria fazer em Bariloche, resolvi usar esses dias para ir ao Parque Nacional Los Alerces, que estava planejado para ser feito no fim da viagem, invertendo a sequência mas sem excluir nada. Bom, pensei que não fosse excluir, mas quando fui conversar com o guarda-parque, descobri que as trilhas que eu gostaria de fazer ainda estavam fechadas, apesar de já estarmos na primavera.

Praia em Punta Mattos, com acesso por boa estrada de terra

Lago Futalaufquen e a estrada que corta o parque de norte a sul

A princípio a frustração foi grande, mas a vista da estrada que corta o parque de norte a sul é tão bonita que até me fez gostar da ideia de ver lindas paisagens sem fazer esforço, e também porque há alguns mirantes e cachoeiras com acesso por caminhadas bem curtas.

Mirante para o Lago Verde (norte do parque) com acesso por trilha de aproximadamente 1,5 km (ida e volta)

Cachoeira Irigoyen, acessada por trilha ainda mais curta que a do Lago Verde

A estrada está asfaltada em quase todo o parque e mesmo os trechos de terra estão em bom estado. Dentro de Los Alerces há hotéis, pousadas, cabanas e campings e, no verão, há passeios de barco pelo lago Futalaufquen, que tem profundidade média de 150 metros e é muito procurado por pescadores de pesca com mosca.

Lago Futalaufquen

Praia Coyhue Viejo sob a luz do luar

Rio Arrayanes visto da passarela

Como não pude subir as montanhas, duas noites foram suficientes, mas no verão o ideal é passar ao menos 4 dias pra conhecer bem tanto as trilhas como os lagos. Já que no começo de outubro isso não é uma opção, hora de botar o jipinho na estrada e rumar para El Chaltén, a capital argentina do trekking!

Los Pozones, no extremo sul do Parque Nacional

Esse é um alerce, árvore que deu nome ao parque e que é considerada um dos seres vivos mais antigos da Terra. Esse tem idade aproximada de “apenas” 300 anos, mas o mais velho, que pode ser visto no verão pegando um passeio de barco, tem idade aproximada de 2.600 anos!

05/10/2019 a 07/10/2019 - Bariloche (Argentina)

Bariloche e o lago Nahuel Huapi

Depois de 4 dias na estrada, dirigindo em média 12 horas por dia, foi um alívio chegar em Bariloche e ser muito bem recebido por Anibal e Andrea, os donos da Hostería La Pastorella, que me hospedaram como cortesia por três noites em sua acolhedora pousada, que é como chamaríamos uma hostería no Brasil.

Meu quarto na Hostería La Pastorella

No primeiro dia eu queria subir o Cerro Campanário, que tem uma das vistas mais bonitas de Bariloche, mas como estava nublado e ameaçando chover, desisti. Afinal, foto no Campanário com tempo fechado eu já fiz há alguns anos, quando estive pela primeira vez em Bariloche, com a minha (na época) namorada. Resolvi sair de carro apenas pra passear um pouco por umas estradas que eu não havia conhecido na minha viagem anterior.

Lago Nahuel Huapi visto do Circuito Chico, infelizmente em um dia cinzento

Cachoeiras no Arroyo Goye vistas da estrada

No fim do dia, como o tempo estava melhorando, resolvi subir de carro o Cerro Otto e depois fazer uma curta caminhada para ver o pôr-do-sol com vista para os lagos e o Cerro Catedral. Meu erro foi ter me esquecido que já estava na Patagônia e que iria esfriar muito, o que não demorou pra acontecer. Dois pares de luvas na mala e nenhum comigo, erro de principiante… Quando estava voltando pro carro, vi que o termômetro do GPS marcava 1 grau, sem contar o vento bem forte. Lição aprendida!

Pôr-do-sol visto do Cerro Otto

O segundo dia amanheceu como estava previsto, com chuva fraca mas constante, então aproveitei pra dormir bastante, editar as fotos e escrever um pouco. No fim do dia saí pra andar um pouco pelo centro e, de noite, pra jantar como cortesia no restaurante Familia de Caso. Não foi difícil escolher o que ira comer, afinal, estou na Argentina e tinha que provar uma boa carne.

Ojos de bife (também conhecido como bife ancho) delicioso no restaurante Familia de Caso

Na manhã do dia 07/10 eu tinha que pegar a estrada de novo mas, apesar de adorar Bariloche, não foi uma partida difícil, já que em mais ou menos dois meses, quando eu estiver voltando do sul da Patagônia, pararei em Bariloche por algumas semanas para fazer duas travessias no Parque Nacional.

Lago Gutiérrez e Parque Nacional Nahuel Huapi

01/10/2019 a 04/10/2019 - De São Sebastião (Brasil) a Bariloche (Argentina)

Jimny na Rio-Santos, partindo de São Sebastião. Esse lugar vai me deixar com saudades!

Foram 4 dias dirigindo de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, até Bariloche, meu primeiro destino na Patagônia Argentina. A distância percorrida nesses 4 dias foi de 3.933 km em 49 horas e 35 minutos, sem contar as paradas pra abastecer o carro e o motorista.

Ao fim do primeiro dia, em torno das 22:00, quando eu estava cansado, vejo a placa “Preços especiais para viajantes” em um motel. Não tive dúvida, além de adorar preços especiais, é ótimo ter o carro bem perto quando ele está cheio de equipamentos.

Eu gosto de dirigir na estrada e de fazer longas viagens de carro, mas não dá pra dizer que esses dias foram divertidos porque os únicos trechos bonitos são os do início, bem perto da minha casa, na Rio-Santos, e no fim do quarto dia, rodando os últimos 200 km até chegar em Bariloche, quando começam os lagos e as lindas montanhas do Andes.

Um amigo que fiz nessa viagem e que já tentou entrar no carro

Durante esses quase 4 mil km teve muito sol no começo, depois veio muita chuva mas, felizmente, o único imprevisto aconteceu quando eu iria finalmente entrar na Patagônia, ao cruzar o Rio Colorado. No dia 03 eu decidi que iria dormir um pouco antes desse rio, assim eu o atravessaria logo cedo e chegaria em Bariloche ainda no meio da tarde, com tempo de ir ao Club Andino Bariloche pra pegar informações atualizadas sobre as trilhas.

Acordei no dia 04/10 com temperatura de apenas 2 graus e segui sem nem mesmo tomar café-da-manhã, faria isso um pouco mais tarde, mas depois de dirigir por uma hora e chegar na ponte, ela havia sido fechada pra recapearem o asfalto. Nenhum aviso na estrada, imaginem a frustração quando me falam “se tivesse chegado 10 minutos antes, teria passado”. Enfim, retornei e peguei uma estrada de rípio (terra com cascalho) por 80 km até chegar em outra estrada asfaltada e voltar a dirigir pro sul.

Na terceira noite, já na Argentina, dormi em outro motel, mas esse faz justiça ao nome original, que vem dos EUA e é a junção de hotel + motor, ou seja, o carro fica junto da porta do quarto

Devo ter perdido apenas uma hora e meia mas foi tempo suficiente pra não conseguir encontrar o Club Andino aberto, então relaxei e fui dirigindo bem tranquilo, parando em vários locais pra fotografar.

Represa Alicurá

Represa Alicurá

Rio Limay

Interessante é a diferença de fiscalização policial nas estradas argentinas e brasileiras. Enquanto que no Brasil eu não vi a polícia parando os carros em nenhum local, na Argentina, apenas no primeiro dia, vi 5 comandos. Em um deles eu fui parado e o policial pediu os documentos e também o extintor. Vendo que estava tudo correto, perguntou:
-Vem de onde?
-São Paulo (ele não saberia se eu falasse São Sebastião)
-Vai pra onde?
-Bariloche
-Sozinho? (olhando pro banco do passageiro atulhado de comidas, câmeras, etc)
-Sim.
-Cadê tua garota?
-Também quero saber.
-Ela está te esperando em Bariloche. (E aí começou a dar dicas de outros locais pra visitar pela Argentina)

Essa é minha segunda viagem de carro pela Argentina, já fui parado diversas vezes e os policiais sempre foram honestos e muito simpáticos, acabando com a má impressão que muitos brasileiros haviam me dado com histórias de corrupção e extorsão. Ainda vou dirigir por mais de 10 mil km na Argentina, espero continuar encontrando apenas policiais honestos e educados, mas se algo diferente acontecer, contarei a história por aqui. Agora é hora de aproveitar Bariloche e, assim que sobrar um tempo, escreverei sobre os dias nessa linda cidade!