Lençóis Maranhenses

Ocupando uma área com aproximadamente 1.500 km², o único deserto brasileiro sofre constantes mudanças em suas paisagens, tanto pela ação do ventos, que move as dunas em torno de 20 metros por ano, quanto pelas variações no índices pluviométricos. De janeiro a julho, a água das fortes chuvas fica presa entre as dunas, formando milhares de lagoas com diversos tons de verde ou azul, que são a grande atração da região. Já durante o segundo semestre, as lagoas vão secando até que os Lençóis tenham a real aparência de um deserto.

Descanso durante a travessia

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Lagoas azuis e verdes se espalham por centenas de quilômetros

Lagoas azuis e verdes se espalham por centenas de quilômetros

Incrível é ver que, mesmo com as lagoas secas por boa parte do ano, em algumas há peixes. Isso acontece pois durante a seca as ovas ficam enterradas, eclodindo assim que a temporada de chuvas recomeça.

Visando proteger esse incrível ecossistema de dunas, mangues e restingas, em 1981 foi criado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com 147.222 hectares, que tem duas pequenas cidades como pontos de partida para visitação.

 

Barreirinhas

A leste dos Lençóis está a principal cidade que dá acesso ao Parque, localizada à margem do belo rio Preguiças, nome recebido por fluir bem lentamente para o mar.

Quase tão calma quanto o rio Preguiças, Barreirinhas possui boas opções de hospedagem e alimentação, além de diversas agências de turismo local. Aliás, o ponto negativo de Barreirinhas é justamente a insistência dos vendedores dessas agências, que ficam caçando clientes nas ruas e às vezes até seguindo-os, causando situações embaraçosas para os turistas, que em certos momentos só conseguem se livrar deles deixando a educação de lado.

A duna no centro de Barreirinhas serve como área de lazer da cidade

A duna no centro de Barreirinhas serve como área de lazer da cidade

Os passeios para as lagoas podem ser feitos pela manhã ou tarde, quando os jipes partem da cidade e rodam entre uma hora e uma hora e meia através da mata e, na época de chuvas, atravessam lagos que chegam a cobrir o capô dos carros. Assim que o jipe chega nas dunas, começa a caminhada para as lagoas, próximas umas das outras e sempre convidativas para um refrescante banho em águas incrivelmente transparentes.

Lagoa Esmeralda

Lagoa Esmeralda

Lagoa Preguiça

Lagoa Preguiça

Pôr do sol na região da Lagoa Azul

Pôr do sol na região da Lagoa Azul

Além do passeio pelas dunas, há outro com custo maior mas que não pode deixar de ser feito: o sobrevoo turístico sobre o Parque! Só assim é possível perceber a imensidão dos Lençóis e entender o motivo pelo qual a região tem esse nome, pois quando vistas de cima, as dunas se assemelham a um lençol desarrumado sobre a cama. O sobrevoo dura de 27 a 30 minutos, mas parece muito menos, de tão fascinante que é. Nesse tempo você poderá ver Caburé, Mandacaru e Atins, sendo que a partir daí o avião segue até a região dos oásis, no centro do Parque, iniciando o retorno para Barreirinhas, mas ainda passando por centenas de lagoas, incluindo a Lagoa Azul e arredores.

Região da Lagoa Azul

Região da Lagoa Azul

De baixo para cima: lagoa Preguiça, Esmeralda e Azul

De baixo para cima: lagoa Preguiça, Esmeralda e Azul

Não tão fascinante como o sobrevoo, mas também muito bela, é a descida do Rio Preguiças até o mar, parando em povoados como Vassouras, Mandacaru, Caburé e Atins.

Em Vassouras, a grande atração são os macacos que ficam em volta do povoado à espera de comida, o que sempre rende boas fotos. Mandacaru é conhecida por ter um belo farol em que é possível subir para aproveitar a vista, que é bonita mas depois do sobrevoo não dá pra dizer que é impactante. Caburé, a terceira parada das embarcações, fica entre o rio e o mar, além de ser um ponto de partida para quem quer conhecer os Pequenos Lençóis. Já a última parada das voadeiras, como são chamados os barcos rápidos que fazem esses passeios, costuma ser em Atins, outro pequeno povoado que serve de entrada para o Parque ou para quem quer cruzar os Lençóis caminhando durante três ou quatro dias, até chegar a Santo Amaro do Maranhão.

Durante a descida do rio há várias praias onde é possível parar para um banho

Durante a descida do rio há várias praias onde é possível parar para um banho

Macaco-prego no povoado de Vassouras

Macaco-prego no povoado de Vassouras

Macaco-prego no povoado de Vassouras

Macaco-prego no povoado de Vassouras

Atins, povoado na foz do rio Preguiças

Atins, povoado na foz do rio Preguiças

Farol de Mandacaru

Farol de Mandacaru

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Vista do farol de Mandacaru

 

Os Oásis

No centro do Parque há dois oásis, Baixa Grande e Queimada dos Britos, que são habitados por comunidades de pescadores chamados erroneamente de nômades. Na verdade eles passam parte do ano no litoral, vivendo da pesca, e a outra parte nos oásis, cuidando do gado e dos bodes que vivem soltos pelas “morrarias”, como são chamadas as dunas pelos habitantes locais.

Baixa Grande

Foto em 360° da Baixa Grande

Baixa Grande quase toda submersa

Baixa Grande quase toda submersa

Baixa Grande

Baixa Grande

Queimada dos Britos ganhou esse nome por causa de seu fundador, Manuel Brito, e todos que lá vivem são parentes e se casam entre si com naturalidade. Apesar de estar afastada de tudo por algumas horas de caminhada, é ponto de descanso e pernoite para quem resolve caminhar através dos Lençóis, mas também pode ser conhecida saindo de Santo Amaro com um 4x4, fazendo o trajeto de ida e volta no mesmo dia. Importante dizer que veículos particulares não podem entrar no Parque, esse trajeto tem que ser feito com algum jipe credenciado.

 

Santo Amaro do Maranhão

Na ponta oeste do Parque, com acesso apenas por veículos 4x4 ou barcos, fica Santo Amaro, cidade menor que Barreirinhas mas que conta com boas pousadas e oferece excelentes passeios, não só para as dunas como também para o Lago de Santo Amaro, um importante ponto de alimentação e reprodução de aves.

Durante a época de chuvas, o caminho entre o povoado de Sangue e Santo Amaro pode ficar fechado até mesmo para veículos 4x4, mas há outra opção muito mais bonita que o caminho por terra: ir até Humberto de Campos por estradas asfaltadas e de lá pegar uma voadeira até Santo Amaro, navegando por uma hora e meia entre florestas, mangues, criações de búfalos e, se tiver um pouco de sorte, ainda poderá ver algum jacaré.

Por terra o trajeto leva em torno de duas horas

Por terra o trajeto leva em torno de duas horas

Buritizeiros entre Humberto de Campos e Santo Amaro

Buritizeiros entre Humberto de Campos e Santo Amaro

Como a cidade fica perto do Parque, é possível ir caminhando até as lagoas, mas para quem não quer se cansar, em 20 minutos os jipes chegam na Lagoa da Gaivota, a mais bela que vi nas duas viagens que fiz!

Lagoa da Gaivota

Lagoa da Gaivota

Lagoa da Gaivota

Lagoa da Gaivota

Caminhando mais um pouco fica a casa do Sr. Adelmo e Dona Tereza, que vale uma visita não só pela beleza do local como para beber a água de um coco tirado na hora e conhecer o modo de vida deles, isolados da pequena cidade por uma hora e meia de caminhada.

Na época cheia é preciso atravessar um lago para chegar na casa

Na época cheia é preciso atravessar um lago para chegar na casa

Casa do Sr. Adelmo e Dona Tereza

Casa do Sr. Adelmo e Dona Tereza

É pena que nessa região existam porcos e bodes andando soltos pelas dunas, sujando o ambiente e poluindo algumas lagoas. Quem sabe, quando o turismo se tornar uma boa fonte de renda para o município, os animais sejam retirados de lá e levados para locais próprios, preservando assim a área mais bonita dos Lençóis Maranhenses!

Barreira das Pacas

Barreira das Pacas

 

 

Canoeiro em Santo Amaro do Maranhão

Canoeiro em Santo Amaro do Maranhão

A Travessia

Outro jeito de conhecer os Lençóis é caminhando. Como as agências vão sempre aos mesmo locais, ao fazer a travessia do Parque Nacional a pé você caminhará por horas (ou dias) sem encontrar ninguém, escolhendo em qual lagoa quer se banhar ouvindo apenas o som do vento movendo as dunas de lugar. Quantos dias é preciso para fazer a travessia vai depender do seu condicionamento e do quanto quer andar por dia. Eu fiz em três dias e meio, sendo que só o último trecho foi mais puxado, entre a Queimada dos Paulos e Santo Amaro.

A melhor época pra ir é, sem dúvida, durante a época de cheia, mas confira antes se as lagoas estão com água, pois em alguns anos não chove o suficiente para encher as lagoas. Quando fui, mesmo sendo a época ideal, haviam pouquíssimas lagoas e a lagoa mais funda que encontrei tinha só um metro e meio de água, enquanto que na minha primeira viagem atrás de cada duna havia uma lagoa e boa parte delas com mais de dois metros de profundidade.

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Dia 1 – 8,5 km

O primeiro dia foi bem tranquilo. Depois de descer o rio calmamente, visitar Mandacaru e Atins, saímos do Canto do Atins no meio da tarde e andamos pela areia dura da praia até o Restaurante da Luzia, onde pernoitamos em quartos extremamente simples mas com preço compatível. Esse restaurante é famoso por seu camarão só que não achei tão bom como dizem. Não sei se fui com expectativa muito alta por tudo que havia lido, mas pra ser sincero, conheço diversos restaurantes em São Paulo com pratos bem melhores de camarão, sem contar que um camarão do meu prato e outro do prato de minha amiga estavam estragados. O visual dessa caminhada não empolga, já que o mar naquela região é marrom, então na minha próxima travessia pretendo entrar nos Lençóis sem andar pela praia e recomendo que faça o mesmo.

Lagoa do Guajiru

Clique para abrir foto em 360° da Lagoa do Guajiru

Dia 2 – 19,8 km

Em um ano normal, basta caminhar pra dentro do Parque pra encontrar dezenas de lagoas, mas como a seca estava forte nessa época de chuvas, fomos direto para a Lagoa do Guajiru, por ser a lagoa mais cheia dentre as conhecidas pelos guias. Pra quem nunca esteve nos Lençóis, até que é uma lagoa bonita, mas sua cor de Coca-Cola e profundidade de um metro e meio foi decepcionante para quem já havia visto as lagoas fundas e de azul cristalino em outros anos. De qualquer forma, foi um bom banho pra aliviar o calor do meio dia sob o sol do Maranhão. Quando o calor diminuiu um pouco, seguimos caminho em direção à Baixa Grande, primeiro “oásis” que encontraríamos e local de pernoite, mas pouco antes do pôr-do-sol resolvi subir uma duna para ver o que havia do outro lado e, pra nossa surpresa, tinha uma bela lagoa, então resolvemos montar as barracas e dormir ali mesmo, curtindo o isolamento, a lagoa “particular” e um céu incrivelmente estrelado.

Descanso na travessia dos Lençóis Maranhenses

Foto em 360° durante uma pausa para descanso nas horas mais quentes

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Dia 3 – 19,7 km

O terceiro dia começou com um belo nascer do sol e depois caminhada até a Baixa Grande. Importante dizer que não é fácil encontrar a entrada desse oásis sem ter boas indicações, pois a mata é fechada. Na Baixa Grande os moradores vendem bebidas e refeições, há redes para descanso dos caminhantes e quartos bem simples para quem quer passar a noite. Como estava cedo, continuamos caminhando, passamos pela Queimada dos Britos e paramos na Queimada dos Paulos, onde montamos as barracas no quintal de uma casa e usamos o chuveiro.

Pôr do sol durante a travessia dos Lençóis Maranhenses

Foto em 360° do nascer do sol

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Dia 4 – 26 km

O último dia foi o mais longo e os moradores da Queimada já haviam nos avisado que não havia uma lagoa sequer até Santo Amaro, o que foi uma surpresa, já que a Lagoa da Gaivota é grande e funda, mas até ela estava completamente seca. Sem água para reabastecer as garrafas e nos banharmos, o jeito foi seguir direto até Santo Amaro, caminhando mesmo nas horas mais quentes, e depois de 26 km subindo e descendo dunas, foi um alívio chegar na cidade e desfrutar de uma sombra e bebida gelada, com a certeza de voltar em uma época de lagoas cheias pra refazer essa travessia.

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Dicas

Onde começar: o melhor é começar na região de Barreirinhas ou Atins e terminar em Santo Amaro, já que assim você subirá as dunas pelo lado menos íngreme e o vento jogará areia nas suas costas, não no seu rosto.

Roupas: alguns preferem caminhar descalços, outros com papetes, mas uma coisa é certa, tênis ou bota são péssimas opções, já que ao descer as dunas o pé vai afundar na areia e o tênis ficará cheio de areia. Eu usei papete com meias (sim, é feio mas prático e confortável) pra proteger o pé na travessia de áreas alagadas, onde não dá pra ver se há tocos ou espinhos e a meia serve pra proteger a pele da abrasão, já que sempre fica areia entre a pele e as tiras a papete. Boné legionário também é muito útil, pra proteger orelhas e pescoço e, quando passar por alguma lagoa, é só molhá-lo pra caminhar um tempo com a cabeça fria. Por fim, óculos escuros também são fundamentais.

Água para beber: apesar das lagoas serem formadas por água de chuva, não é bom bebê-las sem esterilizá-las, já que há vacas, cavalos e cabras defecando na areia. Leve Hidrosteril ou outros meios de esterilizar água para não correr riscos desnecessários.

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